A Editora Goody e o Fim das Publicações Regulares de Banda Desenhada da Disney e Marvel em Portugal

A editora Goody, que nos últimos anos se destacou no mercado português pela publicação regular de banda desenhada da Disney e da Marvel, entrou em processo de insolvência, de acordo com informações apuradas junto de fontes próximas da empresa. Este desfecho marca o término de um ciclo de seis anos de atividade editorial dedicada à cultura pop, entretenimento e imprensa especializada, deixando um rasto de dívidas, assinantes insatisfeitos e trabalhadores com salários em atraso.

Trajetória e Diversificação Editorial

Fundada há mais de uma década, a Goody construiu uma reputação assente na qualidade editorial e na diversificação temática. Para além da banda desenhada, a editora destacou-se em áreas como tecnologia, saúde, literatura infantojuvenil e videojogos. Neste último segmento, tornou-se uma referência nacional, com títulos icónicos como MaxiConsolasRevista Oficial PlaystationPSM2 e a clássica BGamer, tendo chegado a publicar quatro revistas simultaneamente, com uma redação dedicada de cerca de dez elementos.

No domínio do cinema e da cultura, a Goody foi responsável pela edição portuguesa da conceituada revista Empire, bem como pelas adaptações nacionais de publicações como Top Gear e Quero Saber. Dirigiu ainda a sua produção ao público mais jovem, lançando revistas temáticas sobre blockbusters de animação da Disney e da Cartoon Network, e especiais sobre fenómenos passageiros como fidget spinnersPokémon Go e Fortnite, cujos conteúdos foram posteriormente exportados para outros países.

Iniciativas no Universo da Banda Desenhada

A atividade da Goody no domínio da banda desenhada iniciou-se em dezembro de 2012 com o lançamento da Comix, marcando o regresso das edições Disney após um longo interregno. Seguiram-se títulos como HiperBigDisney Especial e colaborações com o jornal Público. Em 2013, a editora registou 77 lançamentos.

Em 2014, ampliou a oferta com Os Simpsons e títulos direcionados ao público feminino, como ViolettaReal Life e Minnie e Amigos, embora estas apostas tenham sido canceladas no ano seguinte. Ainda assim, 2014 foi o melhor ano editorial, com 99 revistas publicadas.

Em 2015, a Big foi cancelada após dez números. Em 2017, a Goody reestruturou a linha editorial, cancelando todos os títulos Disney, incluindo a Comix, e concentrando a oferta em MickeyDonald e Tio Patinhas. Anunciou também o regresso da Marvel, com as séries Homem-Aranha e Os Vingadores, fechando o ano com 56 revistas.

Em 2018, a editora apostou em minisséries mensais, complementando a oferta Disney e Marvel. Até outubro, as publicações mantinham regularidade, com uma a duas novidades semanais. Contudo, a suspensão dos títulos Marvel e, posteriormente, o encerramento das edições Disney, confirmaram o colapso da operação.

Cronologia do Declínio

Os primeiros sinais de dificuldade surgiram no verão de 2017, quando a distribuidora Urbanos declarou falência, causando à Goody um prejuízo superior a duzentos mil euros. Após um breve período de interrupção, a editora readaptou-se à nova distribuidora, Vasp — atualmente em situação de monopólio em Portugal — e retomou as publicações, numa tentativa de normalização.

Contudo, os problemas agravaram-se com atrasos sucessivos nos lançamentos, dificuldades no departamento de marketing e, em setembro de 2018, a suspensão abrupta das revistas Marvel. Várias séries ficaram incompletas, como Demolidor (apenas um número publicado, de quatro previstos), Homem-Aranha e Vingadores (interrompidas no nono número, de catorze), X-Men (no oitavo número) e Marvel Especial (apenas uma edição, de catorze).

As revistas Disney continuaram a circular até novembro, tendo a PatoAventuras n.º 4 sido a última publicação da editora, em dezembro de 2018.

Consequências Financeiras e Humanas

A insolvência da Goody afetou diretamente mais de trinta trabalhadores que integravam a equipa interna, muitos dos quais ainda não receberam os salários devidos. Acrescem ainda dívidas a fornecedores, gráficas e colaboradores externos, totalizando várias dezenas de milhares de euros. Os assinantes de todas as revistas ficaram igualmente lesados, sem acesso às publicações contratadas e sem possibilidade de reembolso.

Segundo fontes do setor, existiam ainda revistas prontas ou em fase final de impressão nas gráficas, que nunca chegarão ao mercado.

Com a insolvência da Goody, encerra-se um capítulo relevante na edição de banda desenhada em Portugal. Ao longo de seis anos, a editora publicou 462 títulos, tendo contribuído para a revitalização do setor e para o acesso do público português a conteúdos de referência internacional.

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