A literatura continua a ser uma importante fonte de inspiração para a banda desenhada, e A Seita tem reforçado essa aposta com várias adaptações de obras clássicas. Entre romances do século XIX, grandes textos da literatura italiana e peças de Shakespeare, são já vários os títulos que revisitam obras literárias através de diferentes abordagens gráficas.
Os Trabalhadores do Mar
Os Trabalhadores do Mar, de Michel Durand, adapta o romance homónimo de Victor Hugo, uma obra marcada pela dureza da vida dos pescadores e pela luta do homem contra a força da natureza.

A história acompanha Gilliatt, um marinheiro solitário e marginalizado que, movido pelo amor por Déruchette, aceita uma missão aparentemente impossível: recuperar o motor de um barco a vapor encalhado nos perigosos recifes da costa.
A principal particularidade da adaptação está na abordagem gráfica de Durand. Todo o álbum é construído através de hachuras, com conjuntos de linhas que criam sombras, volumes e texturas, evocando as gravuras do século XIX. A técnica reforça a atmosfera austera da história e a presença constante do mar, transformando a luta de Gilliatt numa experiência simultaneamente épica e claustrofóbica.
Nascido em 1957, Michel Durand estudou na École des Beaux-Arts de Quimper e iniciou a sua actividade na revista Fluide Glacial. Depois de uma passagem pela publicidade, desenvolveu uma carreira na banda desenhada, colaborando com autores como Rodolphe, Dieter, Alejandro Jodorowsky e Richard Marazano. Entre os seus trabalhos destaca-se a série Cuervos. Os Trabalhadores do Mar representa uma nova etapa na exploração gráfica do autor, com uma abordagem visual particularmente exigente.
Os Trabalhadores do Mar, de Michel Durand, é publicado em formato brochado, com 168 páginas a preto e branco e dimensões de 24 × 34 cme PVP de 29€.


O Fantasma da Ópera
Em colaboração com a Arte de Autor, A Seita publicou também O Fantasma da Ópera, adaptação do clássico de Gaston Leroux realizada pelos irmãos gémeos Paul e Gaëtan Brizzi.

A história transporta o leitor para a Ópera Garnier de Paris, onde acontecimentos inexplicáveis começam a suceder: um lustre cai durante uma representação, um funcionário é encontrado morto e a direcção do teatro recebe exigências de uma misteriosa figura que reclama para si o camarote número 5. Nos bastidores, a jovem cantora Christine envolve-se num triângulo amoroso que conduz à presença inquietante do Fantasma da Ópera.
Os irmãos Brizzi são conhecidos sobretudo pelo seu trabalho em animação, pintura e ilustração. Entre os seus créditos encontram-se trabalhos para a Disney e sequências de O Corcunda de Notre-Dame e Fantasia 2000. Na banda desenhada, têm desenvolvido sobretudo adaptações de grandes clássicos literários, incluindo O Inferno de Dante, Dom Quixote de la Mancha, obras de Boris Vian, Balzac e Edgar Allan Poe.
Em O Fantasma da Ópera, a experiência dos autores na animação e na pintura traduz-se numa abordagem profundamente visual, em que a Paris do século XIX e, sobretudo, o ambiente da Ópera Garnier assumem um papel central.
O Fantasma da Ópera, de Paul Brizzi e Gaëtan Brizzi, é publicado em capa dura, com 168 páginas a preto e branco e dimensões de 24 × 34 cm. A edição tem um PVP de 29 €.


Trilogia Shakespeariana
A literatura inglesa surge através de Trilogia Shakespeariana, volume que reúne as adaptações de A Tempestade, Hamlet e Romeu e Julieta, realizadas pelo italiano Gianni De Luca, com argumentos de Sigma, pseudónimo de Raoul Traverso.

Publicadas originalmente entre 1975 e 1976 no semanário Il Giornalino, as três adaptações distinguem-se sobretudo pela solução gráfica encontrada por De Luca para representar o movimento e a passagem do tempo.
Em vez da tradicional divisão da página em vinhetas, o desenhador faz as personagens reaparecerem várias vezes no mesmo cenário, em posições diferentes. O resultado aproxima a linguagem da banda desenhada da representação teatral, criando páginas dinâmicas sem recorrer à estrutura convencional das vinhetas.
Nascido na Calábria, Gianni De Luca foi desenhador, ilustrador, pintor e gravador e é considerado um dos grandes mestres dos fumetti italianos. A sua constante pesquisa gráfica tornou-o num dos autores mais inovadores da banda desenhada italiana, tendo influenciado nomes como Frank Miller, Bill Sienkiewicz e Dave McKean. A edição portuguesa inclui ainda um dossier de Pedro Moura dedicado ao autor e às peças adaptadas.
Trilogia Shakespeariana, de Gianni De Luca, é publicada em capa dura, com 144 páginas a preto e branco, dimensões de 19,5 × 27 cm e PVP de 22,90€.


O Deserto dos Tártaros

Outra incursão pela literatura italiana é O Deserto dos Tártaros, adaptação do romance de Dino Buzzati realizada por Michele Medda e Pasquale Frisenda.
A história acompanha Giovanni Drogo, um jovem oficial enviado para a isolada Fortaleza Bastiani, situada junto a uma fronteira árida. Ali, os soldados vivem numa espera permanente por um inimigo e uma guerra que nunca chegam.
A passagem do tempo, a espera, o envelhecimento, a ambição e as oportunidades perdidas estão no centro da narrativa, enquanto a fortaleza se transforma progressivamente num espaço de isolamento e desesperança.
Michele Medda é um dos mais conhecidos argumentistas italianos e co-criador de Nathan Never. Pasquale Frisenda, por seu lado, é um dos desenhadores mais reconhecidos dos fumetti. O seu trabalho nesta adaptação valeu-lhe o Prémio Anafi para Melhor Desenho, tendo a obra sido igualmente distinguida com o Prémio para Melhor Obra em 2025.
O Deserto dos Tártaros, de Michele Medda e Pasquale Frisenda, é publicado em capa dura, com 184 páginas a preto e branco, dimensões de 22 × 28,5 cm e PVP de 26 €.


Lunáticos

A Seita junta ao seu catálogo Lunáticos, de Adam Fyda e Marek Ospalski, uma adaptação de No Globo de Prata, romance de ficção científica do escritor polaco Jerzy Żuławski, frequentemente apontado como uma espécie de Júlio Verne polaco. O álbum integra também a colecção Bursztyn/Âmbar, dedicada à banda desenhada polaca.
Em 1913, uma primeira expedição lunar parte da Terra com cinco aventureiros determinados a alcançar o lado oculto da Lua, onde acreditam existir uma atmosfera. Pouco depois, o contacto com a expedição é perdido e ninguém sabe o que aconteceu aos seus membros ou aquilo que terão descoberto. A partir desta premissa, Lunáticos desenvolve uma história marcada pela morte, pelo amor, pela saudade e pela esperança.
A obra recupera um dos primeiros grandes textos da ficção científica polaca. Publicado originalmente no início do século XX, No Globo de Prata integra uma trilogia de Jerzy Żuławski e combina a aventura espacial com uma reflexão sobre a natureza humana e a construção de sociedades.
Adam Fyda formou-se na Academia de Belas Artes de Wrocław, na Faculdade de Pintura, e trabalhou durante vários anos como designer gráfico, ilustrador, director de arte e designer de capas de livros. Estreou-se na banda desenhada em 2020, com uma obra inspirada no conto de H. P. Lovecraft Nas Montanhas da Loucura. Seguiram-se Perseguindo o Fantasma e uma adaptação de O Grande Deus Pã, de Arthur Machen. As suas obras foram publicadas na Polónia, Itália e Reino Unido. Em Lunáticos, assume a arte em colaboração com o argumentista Marek Ospalski, bibliotecário e co-autor do álbum.
Lunáticos, de Adam Fyda e Marek Ospalski, é publicado em capa dura, com 136 páginas a cores e dimensões de 19,5 × 26 cm. A edição tem um PVP de 20 €.



