É vulgar co-existirem dois equívocos que se costumam cometer quando se faz crítica de Banda Desenhada:
- Entendê-la como um produto menor, o qual só terá ressalva caso seja ‘educativamente’ correcto. Evidentemente, o normal é que suceda o inverso, isto é, que a BD seja representante das ideologias mais dogmáticas e estatizantes, prepotentes e castradoras da liberdade criativa até dizer chega! Sob tal ponto de vista, só raras produções, muito comprometidas politicamente, são tidas em linha de conta. Na realidade, tudo obedece a uma visão que valoriza de forma muito distinta os produtos chamados ‘artísticos’ face aos ‘meios de massas’. Nestes últimos, as finalidades são diferentes dos primeiros, pois as obras que não cumprem a função a elas atribuída, e somente procuram entreter, são alienadas e detestáveis, conceito intimamente ligado ao 2º equívoco.;
- Entendê-la como mais uma derivação da ‘arte’ e, desse modo, buscar nela as virtudes sancionadas positivamente pelo movimento dito ‘moderno’. Dado que estas virtudes chocam frontalmente com algumas das características mais próprias da BD, chega-se ao ponto de se defender produtos cuja arte final pode ser adequada na pintura mas que – por norma – é contraproducente na Banda Desenhada.
A relação entre ambos os erros é óbvia, penso eu. Parte-se de um princípio de separação.
Desde que surgiu a questão entre o original e a cópia, com os actuais meios de reprodução, há quem venha reflectindo sobre isto. O tempo parece ter estabelecido duas posições: por um lado, certas artes tradicionais, dedicadas a uma minoria, e por outro uma comunicação contemporânea que é devorada pelas massas.
Certa corrente cultural quer-nos fazer crer que esta última, dado que está condenada a ser entendida por uma maioria, é pois mais pobre que a primeira. É conceptualmente menos burilada, experimentalmente menos arrojada e, em geral, menos interessante. É, contudo, também mais barata e acessível.
O esvazamento de conteúdos que recentemente tem surgido, é realmente preocupante, o que me faz ficar incrédulo quando tanta gente vê nisso uma virtude. Esta posição de elogio por parte dos críticos – nacionais e estrangeiros – à falta de mensagem aparente nas produções, brada aos céus! Então, agora (por exemplo) uma pintura necessita obrigatoriamente de alguém que a explique, uma espécie de médium, para traduzir em palavras e ideias aquilo que as pinceladas são incapazes de transmitir?!
Sempre a arte funcionou em termos de explicação, de ordenamento do caos, de testemunho dos problemas humanos, chegando a propor novas perspectivas.
O vanguardismo, até na BD, parece pois prolongar-se ruma a um caminho sem saída, cómodo para os extractos da sociedade que não se dão ao trabalho de fazer perguntas, de questionar os porquês da obra feita. Sem falarmos, de resto, no que ele permite como camuflador das limitações artísticas de quem o adopta.
Quando se fala de 9ª arte, falamos de um meio de expressão que une literatura, cinema e ilustração e que, por outro lado, difere deles. Falamos da relação de diversificados factores que se reuniram para colocar no papel uma narrativa gráfica, para contar uma história visual. Se algum destes factores falha, a obra falha.
Se não falamos de desenhos ‘bonitos’ , mas de desenhos que se relacionam entre si, haverá que pensar na funcionalidade do traço e da planificação, ou não será?
O que um artista de BD deve prosseguir com o seu trabalho é precisamente que as figuras e os fundos expressem a cada momento, vinheta a vinheta, o que devem, visto que aquele autor que não subordinar o seu estilo borra a opa.
Pretendendo assumir a modernidade, gera-se um novo tipo de academismo, o pior de todos, o das vanguardas. De novo, a pretendida liberdade criativa traduz-se numa agressiva série de dogmas. Dogmas que proíbem o acesso à explicação. Vale tudo!…
Ou isso ou a contradição de exigir à BD um compromisso que não se pede aos outros produtos que habitam no limbo da Arte.
Acredito que a crítica deve analisar sim, a narrativa que nos oferece, os meios utilizados para veiculá-la e a correspondente relação entre si. Há que se estar acima das modas. Só o compromisso com as editoras ou outras formas de poder poderá explicar atitudes diferentes desta.
Está tão arreigado o hábito de pensar que o ‘bom’ em arte é complicado e sinuoso que , quando aparece algo que não é assim a tentação é menosprezá-lo. Automaticamente.
Tenha-se presente as discussões em torno de coisas como se a BD é ‘narração figurativa’ ou ‘figuração narrativa’ e tantas mais dissertações estéticas do género. Não é isso o que realmente está em jogo.
Se um trabalho se produz, não para cair no goto de uma certa classe privilegiada, mas sim a partir do compromisso e do respeito pela pessoa comum, e se esse trabalho sai bem, forçosamente terá de ser ‘muito bom’.
Até porque, difícil, difícil, é realizar coisas simples, comunicativas e universais.
[note radius=”2″]Um texto da autoria de Fernando Vieira, jornalista, em tempos responsável pela rúbrica Bedelho no jornal Barlavento. Este texto foi originalmente publicado em Julho de 1992 no fanzine CaféNoPark nº 02[/note]
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