Como surgiu a ideia de fazer um história sobre a vida de Mauricio Hora?
Essa foi a parte mais simples de todo o projeto: meu cunhado o conhecia pessoalmente e comentou-me a seu respeito. naquele momento eu decidi que queria contar sua vida em uma BD. Faltava apenas ele concordar, claro. Telefonei-lhe, fiz essa proposta inusitada (“Você quer contar sua vida em forma de história em quadradinhos?”) e, após alguns segundos de silêncio, Maurício concordou! Ganhei um personagem e um amigo.
“Morro da favela” demorou 3 anos a ser feito, o que tornou a sua realização tão longa?
As varias entrevistas e o roteiro. Foi sem dúvidas o roteiro mais difícil que eu fiz. Eu não tinha qualquer experiência com algo sequer parecido a isso, e de repente eu precisava pegar horas e horas de gravações onde Maurício contava ao mesmo tempo sobre vários aspectos de sua vida (a vida na favela, o olhar do fotógrafo, a história de seu pai como traficante, a atuação da polícia na favela, o crime organizado…) para transformar tudo em uma história que fluísse naturalmente, com começo, meio e fim. Foi um desafio grande, até passei a trabalhar com software de criação de roteiro pra cinema a partir dessa BD, pelos recursos que ajudam a organizar as ideias. Mas talvez o meu maior desafio foi trabalhar com personagens reais, que são ou foram gente de verdade. Pessoas com vidas polêmicas, complexas, cheias de momentos delicados. A responsabilidade era grande demais, e me travou num primeiro momento. Depois, senti-me confiante e prossegui.
Que critério utilizas-te para decidir o que ias manter no guião e o que ias deixar de fora?
Tive que eleger qual seria a história que eu ia contar a partir de todos os relatos do Maurício. Três decisões nortearam as minhas escolhas: 1) Tudo o que seria mostrado, questionado, discutido na história seriam vistos pela ótica do Maurício. Tudo ali ele viu ou presenciou e as opiniões são 100% dele; 2) Essa não seria mais uma história onde a favela é mostrada como pretexto para cenas de violência. É impossível a violência não estar presente numa história sobre favela, mas ela não é o tema principal; 3) A história que eu iria contar é a de um garoto que nasceu filho de bandido e que, ao contrário do pai, resolve seguir outro caminho e mudar a favela através da fotografia. Tendo isso claro, ficou muito mais fácil para mim saber o que incluir na BD, o que não incluir e o tom certo para a história.
Existem eventos ou situações que não foram abordados no “Morro da Favela” que penses em vir a utilizar em outro projecto?
Vi um jovem vigia do tráfico em ação, e isso me fez refletir muito sobre sua possível vida. Um dos meus próximos trabalhos, “Olimpo Tropical”, que terá desenhos de Laudo, nasceu desse ponto de partida.
Nos últimos anos tens vindo a ser editado em vários países, como sucedeu essa internacionalização? Que esforços fizeste para que isso acontecesse?
O primeiro passo foi ridículo: escrevi uma mensagem em português, traduzi para o francês via Google Translator (naquele momento, em 2011, eu ainda não falava francês) e enviei a algumas editoras da França! Não é que uma delas respondeu? Para a Inglaterra, foi Maria Clara, que trabalhava na Barba Negra, editora que publicou originalmente “Morro da Favela”, quem fez o contato. Já para Portugal, quem apresentou o livro ao já amigo Rui Brito foi o Paulo Monteiro, um sujeito que tenho no meu coração, além de ser um dos maiores desenhistas que já tive o prazer de conhecer.
E como tem sido a recepção dos teu trabalhos fora do Brasil?
Muito bom, para minha felicidade. Principalmente em Portugal e na França. Neste último, “Morro da Favela” recebeu resenhas muito positivas em publicações de prestígio internacional, como Paris Match, L’Express, Le Figaro, além de resenhas em rádios e um destaque muito positivo também nos sites e revistas especializadas em BD. Foi uma surpresa muito gratificante.
Porque é que o “Duas Luas” é editado primeiro em Portugal?
Porque o editor Rui Brito é um louco! Louco, no sentido mais maravilhoso. Assim que ele soube do projeto da BD, ainda com poucas páginas desenhadas, ele fechou comigo a publicação em Portugal, já planejando-a para lançá-la no Amadora BD. Eu e o desenhista Pablo Mayer sentimo-nos muito lisongeados, não só pelo prestígio ao nosso trabalho como pela confiança de que a BD estaria mesmo pronta até lá com a maior qualidade possível. Para mim (e falo pelo Pablo também), é um orgulho sem tamanho não só o privilégio de ser publicado pela Polvo, editora da qual eu já acompanhava o trabalho no Brasil há muitos anos, mas também pela forma como Rui realmente acredita na nossa obra.
Já vi algumas amostra de arte do Duas Luas em que as existe a utilização da uma cor, contudo a edição portuguesa é a preto e branco. A que se deveu essa opção?
A HQ foi feita originalmente em preto e branco e ela se conta perfeita e lindamente nessa forma. Essas páginas com uma cor era para estarem guardadas ainda, mas acabaram vazando, talvez por incompetência minha mesmo!… Elas fazem parte de um possível destino do título no Brasil, mas é ainda cedo para anunciar isso.
Esta foi a primeira vez que colaboras-te com o Pablo Mayer, como correu a vossa parceria?
Sempre fiz parcerias só com desenhistas que eu já conhecia pessoalmente e já tinha como amigos. Uma parceria criativa pode gerar diversos tipos de desentendimentos e aborrecimentos dependendo de quem você escolhe, e essa minha forma de proceder sempre me garantiu processos de trabalho muito prazeirosos do começo ao fim. Com o Pablo, porém, eu abri uma exceção, talvez por intuição: convidei-o no escuro, por e-mail, sem conhecê-lo. Eu era fã do traço dele há muito tempo e decidi correr o risco. Foi a melhor coisa que eu poderia ter feito: o álbum ficou lindo e eu ganhei um novo amigo.
De onde surgiu a ideia para o “Duas Luas”? Quais eram as temáticas que pretendias abordar?
A ideia principal foi trabalhar com os simbolismos do sonho. Todo o resto, todas as ideias adicionais, vieram para somar a esse ponto de partida.
Tens diversos álbuns publicados mas em nenhum se repetem as personagens. Essa é uma opção consciente? Nunca te sentiste tentado a criar uma personagem que pudesses explorar em diversos álbuns?
Trabalho justamente agora em um projeto nesse sentido: personagens “contínuos”, ao longo de diversas histórias. Ainda não posso dar detalhes! Mas acho que o fato de minhas HQs serem quase sempre histórias fechadas, que começam e acabam de vez no mesmo álbum, deve-se à fragilidade do nosso mercado, por um lado – se eu lançar um album “parte 1”, nunca terei certeza se a “parte 2” será mesmo publicada – e deve-se também às minhas maiores influências, que são o cinema e a literatura, onde a história fechada é mais comum do que nas BDs.
Foste um dos contemplados no 19º ProAC (Programa de Ação Cultural do Estado de São Paulo). Em que consiste esse programa?
É uma seleção feita anualmente para projetos culturais que serão financiados pelo Estado de São Paulo. Já há alguns anos, passaram a incluir as BDs. Para inscrever-se, você tem que morar ao menos a dois anos em São Paulo, condição que passei a preencher a partir do edital desse ano (nasci no Rio de Janeiro e vim morar em São Paulo em 2010). É uma verba que financia a publicação do livro e remunera os artistas. Não é nada que vá mudar a vida de alguém, mas permite a edição do livro e facilita aos autores pagarem as dívidas atrasadas…
Para quem está de fora, por entre os apoios; as edições comerciais como Maurício de Sousa: a internacionalização de autores que trabalham para as editoras americanas seja em regime de “work-for-hire” ou com trabalhos mais autorais como os Fábio Moon e Gabriel Bá: dá a impressão de que existe um mercado de BD no Brasil. Como é que tu resumias a situação da BD brasileira em relação ás oportunidades de trabalhos que existem para os autores brasileiros?
Bom, a coisa fica mais complexa quando usamos a palavra mercado… O cenário dos quadrinhos no Brasil é muito, muito interessante hoje. Tanto pelos que são publicados por editoras como os independentes. As edições independentes são tão profissionais quanto as edições por editoras e ainda possibilitam mais criatividade e liberdade. A produção, tanto em termos de quantidade como de qualidade e diversidade hoje é ímpar, nunca tivemos nenhum momento parecido. Quando falamos de “mercado”, porém, entra o dinheiro na conversa… Aí a situação já não é tão fantástica assim. É muito difícil um autor brasileiro, publicando no Brasil, ganhar todo o seu sustento com os quadrinhos. Este autor precisará de uma produção absurdamente grande e contínua, que se encaixe nas poucas oportunidades de se ganhar um dinheiro mais concreto, que são hoje o PNBE e o PROAC, que já foram citados nessa conversa. Mesmo assim, é uma batalha viver de quadradinhos no Brasil.
Neste momento és autor de BD a tempo inteiro ou a tempo parcial? É que da lista de projectos que vi tua andas bastante ocupado…
Sim, hoje dedico 95% do meu tempo às BDs. Como eu disse, é um desafio gigantesco…
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André Diniz vai estar presente no Amadora BD este fim-de-semana para sessões de autógrafos das 17 ás 18 horas no sábado, dia 2 Novembro, e das 16 ás 19 horas no domingo, dia 3 de Novembro.
A apresentação dos álbuns “Morro da Favela” e “Duas Luas” é no sábado, dia 2, ás 15 horas e conta com a presença de Rui Brito, editor da Polvo, e Pedro Moura, crítico e comissário da exposição “Seis Esquinas de Inquietação”.

