Na semana transacta tinha mencionado que a blogosfera (portuguesa) tinha ignorado a saída da Maria José Pereira do seu cargo de editora de Banda Desenhada na editora Asa, finalmente alguém resolveu corrigir essa lacuna, sem ser grande surpresa, no Leituras BD é publicada uma entrevista com a Maria José onde se aborda a sua carreia de 25 anos como editora de banda desenhada. Um percurso que se iniciou na defunta Méribérica terminadao agora na Editorial Verbo, onde está a trabalhar desde 1 de Agosto como responsável pelo catálogo infanto-juvenil, não é mencionado é este facto significa que a Verbo vá apostar na edição de banda desenhada.
Durante anos a aposta da Verbo em BD limitou-se à série Tintin, de Hergé, tendo depois desistido dessa série o que permitiu que a Asa (editora que a Maria José acabou de abandonar) tivesse adquirido os direitos de publicação, o que permitiu que a Asa tenha nos seu catálogo as séries franco-belgas mais lucrativas: Asterix, Lucky Luke, Blake & Mortimer e Tintin. Não é esclarecido na entrevista se esta mudança de Maria José para a Verbo significa um regresso desta editora à BD, ou só é reflexo de uma mudança de Maria José para um segmento de mercado mais estável: a edição infanto-juvenil. Do mesmo modo não é abordada a passagem da Maria José Pereira pela editora Booktree.

Segunda consta, após a falência da Meribérica, um grupo de editores desta editora, em que se incluía Maria José Pereira, fundou a Booktree só que entretanto surgiu uma oferta da Asa, que resolveu aproveitar a falência da Meribérica para investir na BD.
Maria José Pereira leva para a Asa a estratégia que existia na Booktree: adquirir as séries mais rentáveis que a Méribérica editava: Asterix e Lucky Luke seguidos por Blake e Mortimer, Corto Maltese, Blueberry, Alix.
Esta aposta leva a que ambas as editoras comecem a comprar direitos para séries secundárias para garantirem os direitos das séries que realmente interessavam: Asterix e Lucky Luke, que era suposto garantirem o sucesso comercial da editora que tivesse as séries nos eu catálogo.
No leilão que existiu e onde foram adquiridas dezenas de séries, pela Asa; Booktree; e outras editoras, que não interessavam a ninguém conduziu à enxurrada de títulos que inundaram o mercado entre 2002 e 2004.
A Asa, que tinhas um capacidade de investimento superior, garantiu a aquisição dos desejados Lucky Luke e Asterix, assim como dos restantes best sellers da Méribérica, cujo catálogo acabaria por republicar (quase) na integra.
As centenas de títulos adquiridos na busca da galinha dos ovos de ouro acabou por conduzir à implosão do mercado, uma oferta superior à procura que fez com que quase todos os títulos editados tivessem vendas residuais, existindo séries que deveriam ser best sellers a vender uns míseros 300 exemplares. Da guerra fraticída que existiu na loucura de 2002/2003 a Asa foi a grande vencedora, mas com pouco para se gabar, excepto possuir um vasto catálogo de títulos e de ter ocupado o lugar que antes era da Méribérica, editando (quase) o mesmo que esta já tinha editado. Isto é o que se conta no meio.
A estratégia editorial da Asa, que assumo ser da responsabilidade de Maria José Pereira, acabou por dar menos frutos do que o desejado, tendo o departamento de BD vindo a sofrer reduções de pessoal terminando por ficar reduzido a 3 pessoas, incluindo a (agora) ex-editora.
“Fiquei sem a equipa editorial que eu tinha negociado e escolhido quando entrei para a ASA. E muitas dessas pessoas tinham abandonado, na altura, um emprego “seguro” onde estavam há muitos anos para me seguirem. Confiaram em mim. Eu senti não só que as tinha traído, como que tinha diante de mim um trabalho “colossal” que apenas duas pessoas não poderiam fazer (pelo menos, da forma como eu entendo que deve ser feito).”
É a explicação da própria que numa entrevista típica de burocrata ainda responde a algumas perguntas de forma (meio) directa. Curiosamente é nesta entrevista que responde de modo directo à pergunta sobre o “mini-boom editorial” do momento não se escudando no facto de não fazer futurologia.
“Estou na edição de BD há cerca de 25 anos e posso dizer-te que as tiragens são cada vez mais reduzidas. Isso significa que há, em Portugal, menos pessoas a interessarem-se pela BD. Vamos ver o que vai acontecer nos próximos tempos, mas não estou muito optimista; além disso, o panorama económico também não é animador: as pessoas têm cada vez menos dinheiro para gastar em livros, há cada vez mais livrarias e outros pontos de comercialização de livros com problemas e há uma divisão enorme entre as pessoas que podiam fazer algo pelo BD em Portugal (este não fala com aquele por uma palermice qualquer, ninguém divulga convenientemente o que “é nosso”, não há debates, não há estudos, não há encontros sérios – como existiam por exemplo nos anos 70/80, quando o CPBD foi criado…). “

Como a entrevista é conduzida pelo Nuno Amado que à semelhança da Maria José Pereira faz parte da organização do PPBD (Prémios Profissionais de BD), os ditos prémios não podiam deixar de ser tema de conversa.
“23) O que tu pensas sobre uma crítica muito apontada aos PPBD, sobre a designação “profissionais”? Não há profissionais de BD?
Acho que nem vale a pena perder tempo a responder a um “desabafo” tão infeliz como esse. Não houve há tempos um político que aconselhou os portugueses a emigrar? Esses velhos do Restelo podem ser os primeiros. Porque o que nós precisamos TODOS é de quem faça. Já não nos chega o que vemos na TV (e no parlamento) todos os dias?”
Uma resposta bastante acutilante para os “velhos do restelo” (onde me íncluo) mas que peca por contradizer um pouco o que tinha Maria José tinha dito, numa pergunta anterior, ao falar sobre os autores nacionais.
“19) Uma opinião sincera sobre os autores portugueses?
Se mais não fosse, e porque a trabalhar para o mercado nacional, nenhum autor vive só da BD, ser autor português começa por ser uma pseudo-profissão.”

Eu não poderia estar mais de acordo, pseudo-profissão é uma boa descrição da situação dos autores nacionais. Pessoalmente não me oponho que mudem o nome dos PPBD para: Prémios Pseudo-profissionais de BD, até mantém a sigla e tudo!
“Também aqui o que eu vejo é, uma vez mais, o célebre espírito português: o meu vizinho teve sucesso com o negócio e abriu um bar? Boa! Vou abrir um bar ao lado dele. Não penso que isto leve a lado algum, mas veremos.”
Uma afirmação de Maria José Pereira sobre o mundo da BD nacional com a qual poucos podem discordar, resta saber se falava sobre a implosão do mercado de 2002/2003 ou sobre a invasão de colecções de BD que se verifica nas bancas, e, promete continuar.
A entrevista completa pode ser lida no Leituras de BD, blog de onde foram retiradas as fotos que surgem a acompanhar este texto.
Boas leituras.
Deixe um comentário