Sidney Gusman e outras Turmas da Mônica

A escolha dos artistas em «MSP 50» foi sendo feita a cada número, mas foram sempre procurados por si, ou houve casos de artistas que procuraram oferecer os seus serviços, que queriam participar?

No primeiro, eu mesmo escolhi todos. A partir do segundo, já havia autores que se mostravam interessados. Vários deles conseguiram entrar nas coletâneas; outros não.

Aceitou todos os projectos que foram produzidos? Se não, quais são as razões que poderão ter levado a uma recusa? Alguma vez seria possível que a produtora autorizasse produções com as suas personagens que visassem um público mais adulto, se contivesse, por exemplo, conteúdos obscenos, demasiado violentos ou até de matérias políticas? Ou essas são dimensões a evitar?

Nos «MSP 50», houve, sim, autores que passaram da medida, e tratei de orientá-los que, daquele jeito, não sairia.

Obviamente, por estarem trabalhando com personagens com, em média, 50 anos de histórias, os autores não podiam “pesar a mão”. Ou seja, não dá pra matar um personagem do Mauricio. Nem ter cena de sexo, por exemplo. Porque, mesmo esses produtos sendo mais direcionados a um leitor mais maduro, por ter a marca Mauricio, certamente crianças lerão.

Ou seja, o jogo tem regras, e elas devem ser seguidas por todos os envolvidos no projeto. Isso começa por mim e se estende aos autores.

Qual o grau de liberdade criativa, narrativa e visual, que os artistas tiveram nestes dois projectos? Houve casos em que foi necessário diálogo mais interventivo da parte editorial? Qual é o nível de responsabilidade no manuseamento destas personagens, não apenas importantes a nível do imaginário infanto-juvenil no Brasil ( Portugal e noutros locais), mas também da sua dimensão financeira, por exemplo?

[pullquote align=”right”]«Ouro da Casa» foi um presente a todos os funcionários da casa, que o Mauricio quis dar.[/pullquote]Os autores têm liberdade total, desde que entendam que temos, sim, limites, como já exemplifiquei acima. Se seguirem isso, podem criar à vontade, tanto no roteiro quanto na arte. Mas sempre há um “bate-bola” comigo, na função de editor. Já houve, sim, casos em que tive que interferir de forma mais incisiva. Isso faz parte do processo, não tem jeito.

Afinal, o projeto precisa respeitar as regras do jogo e, claro, ser viável financeiramente.

O Maurício de Sousa ainda participa activamente na escrita, desenho ou planeamento das histórias das suas personagens?

Mauricio analisa todos os roteiros que recebe – cerca de 1300 páginas por mês. Na verdade, ele atua como editor, diretamente com os roteiristas. E também aprova muita coisa ligada à arte – apesar de sua esposa e diretora do estúdio, Alice Takeda, ficar com a maioria desse trabalho.

Quantas pessoas trabalham em média na produtora? Têm um número elevado de artistas entrando e saindo? Ou procuram antes artistas que fiquem durante o máximo de tempo possível na casa?

São quase 300 funcionários atualmente. Mas o turnover é baixo. Geralmente, o pessoal entra e raramente sai. Há funcionários com quase 50 anos de casa.

Muitos autores sempre trabalharam com equipas, de Hergé a Tezuka, já para não falar de grandes estúdios como a Disney. E penso que as produções do Maurício podem ser comparadas a essas plataformas. Hoje em dia, a Disney Itália, por exemplo, permite que os escritores e artistas assinem as suas histórias, tal como sempre ocorreu com a DC ou a Marvel, por exemplo. No caso da Maurício de Sousa, os nomes do pessoal envolvido apenas surge no final de cada publicação, mas de um modo que se torna difícil identificar história por história. Poderá discutir um pouco esta política editorial? 

Esse é um assunto que só o Maurício pode responder, pois é uma decisão empresarial. Mas muitas histórias já vêm saindo com créditos dentro delas.

No seguimento da última pergunta, em que medida é que «Ouro da casa» serve para tornar mais visível o trabalho, ou a personalidade autoral, dos colaboradores?  

«Ouro da Casa» foi um presente a todos os funcionários da casa, que o Mauricio quis dar. E o resultado foi excelente. Tanto que pode ter desdobramentos futuros.

Shiko - Astronauta

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