Memórias do Invisível

Dylan Dog: Memórias do Invisível.

Não recordo qual a primeira história que li de Dylan Dog. Sei que o fiz em tempos pré-pandemia, numa tentativa de expandir a minha literacia da banda desenhada para territórios além do habitual francês, americano e japonês (e ibérico, claro). Estaquei no fumetti pela acessibilidade da língua e  mergulhei nesse mundo, evitando deliberadamente o nosso bem conhecido Tex (nada contra, apenas por não apreciar o western) e, por extensão, Zagor. Descobri a impecabilidade procedimental de Julia. Desiludi-me com o futurismo de Nathan Never, como fã de Ficção Científica, esperava mais do que o que a série dá. Apreciei o classicismo de Martin Mystére, e ainda me cruzei com fenómenos mais fugazes, como o brilhante Lilith de Luca Enoch. Pelo caminho, apaixonei-me por Dylan Dog.

Sei exatamente quando nasceu a paixão. Seria tentador contar-vos que foi a primeira leitura que fiz a Memórias do Invisível. Seria um belo artifício literário para abrilhantar a crítica. Na verdade, o clique que me despertou para este personagem, e em especial para o seu criador e principal argumentista, foi o também brilhante Attraverso lo Specchio. Aí percebi que não estava perante um estereótipo de investigador de um sobrenatural batido e banal, mas sim perante uma personagem muito idiossincrática, mergulhada em histórias complexas, cheias de referências culturais, com personagens multidimensionais. Tende mais para um Carnacki do que Sherlock dos fantasmas. 

O aspeto que me seduziu a fundo é a excecional capacidade de traduzir e incorporar o corpus de ideias e estéticas do fantástico na literatura, cinema e outras artes, bem como de inúmeras referências à cultura global. Sempre de forma elegante, certeira, um manancial referencial que pisca o olho aos leitores mais cultos, sem cair no pastiche.

Depois de Attraverso lo Specchio me despertar, Memórias do Invisível cimentou o meu profundo gosto por Dylan Dog. Poderia ser uma simples história slasher de caça ao assassino nas ruas de Londres, mas é muito, muito mais que isso.

Há neste livro uma cena particularmente simbólica da capacidade referencial de Sclavi, com uma brilhante referência ao quadro Night Hawks de Edward Hooper, aqui transmutado para os domínios do fantástico. Não como exercício de estilo, mas um de muitos elementos que enriquecem uma história desafiante na sua complexidade. Sclavi estava acompanhado ao desenho por um Casertano cheio de energia visual, o que torna esta leitura ainda mais sedutora.

Memórias do Invisível é um livro muito interessante em termos estilísticos. A narrativa é convoluta, seguindo a gramática do policial com contornos de sobrenatural. Não é de todo previsível. Os fios narrativos a que o leitor se vai agarrando para desvendar os mistérios vão sempre mostrar-se becos sem saída. A história tem um final que aparenta satisfazer os requisitos, mas só nas últimas páginas nos revelará a sua real conclusão. Só compreendemos a rigorosa lógica sequencial das peripécias aparentemente díspares e dos momentos sem saída ao finalizar a leitura. Para isso contribui uma das técnicas que torna esta história (e, em geral, o trabalho de argumento de Sclavi) tão hipnotizadora: uma mestria absoluta do equilíbrio narrativo e visual do argumento nas pranchas. Sclavi demonstra um sentido inato para saber onde terminar cada acto das suas histórias no ponto certo da prancha, ou cortando totalmente o acto, ou fazendo a ponte para o seguinte. Nos seus argumentos, um virar de página do leitor é quase sempre a transição perfeita entre um fio narrativo que termina e outro que se inicia.

Como obra dos tempos iniciais do que se viria a tornar uma longa série, Memórias do Invisível também condensa a iconografia dos seus personagens. Percebemos Dylan como um investigador não muito eficaz. É o tipo de detetive a quem soluções para os mistérios lhe surgem, apesar do seu faro investigativo. Nostálgico, abstémio e fortíssimo pinga amor, apesar do seu envolvimento com uma das personagens femininas da história ter sido dos mais profundos que Sclavi lhe deu. Levamos em cheio com o surrealismo de Groucho nas suas piadas, tão secas que são capazes  de fazer um deserto parecer húmido. Apiedamo-nos do inspector Bloch, eternamente preocupado com a manutenção da sua reforma e investigador de homicídios que é incapaz de conter vómitos sempre que se depara com uma cena de crime violento. Intuímos o elo entre estes três personagens algo inadaptados na ligação inexplicável entre o detetive e o seu assistente de utilidade muito duvidosa, e na relação quasi-filial entre Dylan e o inspector. Pormenores que constroem um personagem marcante, no meio de uma história repleta de detalhes.

O aspeto mais acutilante neste Memórias do Invisível é a deliciosa ambiguidade da verdadeira personagem principal. Não é explanada como narrador único  através do qual vamos conhecendo a história, mas como voz off que tanto nos situa como nos troca as voltas. Sclavi e Casertano nunca esclarecem este personagem, não se consegue perceber se é completamente imaginário, se é verdadeiramente invisível, ou elemento sobrenatural. Aqui, como habitual na melhor BD, a genialidade vive do trabalho de equipa. Se o argumento de Sclavi nos dá essa ambiguidade, Casertano sublinha essa invisibilidade nas pranchas pela forma como a aborda, ou, como coloca de forma divertida numa entrevista que acompanha esta edição portuguesa, o desenhador ganhou fama pela forma como não desenhou.

Noutra marca que se tornaria muito comum nas histórias deste personagem, se escritas por Sclavi, é a ausência de finais perfeitos, satisfatórios e conclusivos. Não pelo uso do tradicional artifício de um sobrenatural que poderá voltar a manifestar-se. Ao longo da leitura, percebemos a fragilidade das personagens, e o final mostra-nos que a satisfação da conclusão não remenda os fragmentos nelas deixados. 

Celebrando os 40 anos de uma das personagens mais fascinantes do fumetti (sou, claro, muito suspeito e nada isento nesta caracterização), a editora A Seita traz aos leitores portugueses uma das suas grandes histórias. É um mergulho no melhor do género, à descoberta do génio narrativo de Tiziano Sclavi e do traço clássico de Giampiero Casertano.

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