O editor-assistente, José Hartvig de Freitas, fez o comunicado na secção de comentários do blogue As Leituras do Pedro, o que é sempre mais prático (para informar a malta) do que enviar um comunicado aos diverso meios de divulgação. Embora reconheça que agora até faz mais sentido do que quando foi revelado o plano editorial da Panini para Portugal em 2014, afinal agora é uma questão de defesa da honra!
Hartvig de Freitas começa por esclarecer que quem pensa não tem interessse em publicar mensais o está a confundir com outra pessoa, passando depois por uma viagem do tempo até aos primórdios da Devir.
Estive à frente das edições Devir durante os 6 anos em que se publicaram comics mensais, fui eu que fiz força dentro da empresa para que o projecto fosse feito (com uma ajuda que devo sempre agradecer do José Rui Fernandes da Mundo Fantasma, que foi o primeiro a ter a ideia e a sugerir a ideia à Panini, na altura), batalhei para que se tentassem encerrar o melhor possível os arcos de história depois de se tomar a decisão de cancelar os regulares, e quando finalmente se deixou de editar comics na Devir (com algumas excepções), deixei a empresa. É tão simples como isso.
Quem considera que um produto quando é mal divulgado é lógico que não venda – acusão repitada várias vezes sobre a revistas da Panini Espanhar – tem uma resposta simples do ex-editor-assistente: “sem querer ofender, penso que não sabe do que fala.”
Curiosamente, para justificar a má divulgação das revistas da Marvel, Freitas recorre ao passado longínquo.
A Devir fez um investimento muito grande nos mensais no seu lançamento, e que resultou bastante bem. Durante alguns anos vendeu razoavelmente, mas por vários motivos essas vendas foram deslizando e cerca de 2004 a Devir perdia dinheiro com os mensais. Nessa altura continuou-se durante um par de anos porque 1) para manter o canal de distribuição (bancas) aberto para outros produtos (trades) era preciso continuar a distribuir os comics para saber quais os melhores pontos de venda e porque 2) indubitavelmente os comics criavam leitores para os trades; aliás, parte do boom da BD dos anos 2000 teve a ver com o lançamento dos mensais da Devir, que recuepraram alguns dos leitores dos formatinhos, e também pela mudança da qualidade do papel, formato, etc… captivaram leitores novos (de franco-belga ou outros). Mas quando as vendas baixaram o suficiente para os comics perderem mais dinheiro, deixou de compensar e teve de cancelar. Tão simples quanto isto. Na altura fizeram-se vários planos possíveis de relançamento, com investimentos em pub, etc… mas não nos devemos esquecer que a Devir é uma empresa brasileiro-portuguesa-espanhola, e que existem muito projectos em competição ao mesmo tempo e os recursos são escassos. Na altura achou-se (penso que com razão) que a Devir não tinha capacidade de fazer esse investimento e que ele provavelmente não seria eficaz. Isso leva-nos à conversa sobre o formato dos comics mensais e se ele é adequado ou não para o nosso mercado. Talvez não seja, mas isso é outra conversa.
Curiosamente a má divulgação das edições da Panini não é abordade. Mas enfim, passemos para outros assuntos.
Panini: não lavo as minhas mãos, apenas tenho acordos de confidencialidade e não posso falar em público. O Cesário não viu nenhum dos emails que mandei à Panini, portanto não sabe se lutei ou não para manter as revistas mensais (a equipa editorial da Panini Comis Espanha lutou MESMO ferozmente, mas a decisão foi da administração, penso eu) ou para fazer um esforço para mudar outras coisas. E eu não “continuo a ter autorização da Panini para fazer HCs”, tem a Levoir, e tem porque pagou os respectivos direitos e adiantamentos e apresentou um projecto credível, tal como o leitor poderia ter se fizesse o mesmo. Essa “autorização” vem exclusivamente daí e de mais lado nenhum. E não sei como é que diz que faço algo com pouca vontade, aliás, você ne, me conhece.
Para que conste: a Panini contratou-me EXCLUSIVAMENTE para tratar das traduções, revisões, e textos de apoio dos comics. Nunca tive qualquer intervenção na escolha dos comics e livros, nem no número de livros a editar ne nada. Deram-me um plano para a mão e disseram-me: é isto. E mais tarde disseram-me que não estava a corresponder às expectativas e que iria ser cancelado. Nem nunca cheguei a falar com quem tomou a decisão, embora tenha falado (e muito!) com a direcção editorial que partilha a maioria do incómodo e decepção dos leitores portugueses.
Curiosamente, fica por mencionar algo que o supostamente era “coisa de Freitas”: a divulgação que (parece que) seria feita a meias entre Espanha e Portugal, onde a responsabilidade seria de José Hartvig de Freitas. No inicio das edições ainda chegou alguma informação adicional do lado português, depois passou a só estar disponível a informação que vinha de Espanha.
Mas, seguindo em frente! Passemos para a situação da Levoir editora onde Hartivg de Freitas também é editor ou, melhor dizendo, coordenador editorial de colecções de Marvel e DC Comics.
A escolha dos livros aqui é feita por mim, com a ajuda de outras pessoas, pela Levoir e pelo cliente da Levoir, o Público, e é aprovada ou não pela Panini, que também sugere ou por vezes “impõe” algumas escolhas ou veta outras. E quando o cliente diz que gostaria mais disto ou daquilo, ou se pede mais material novo e menos clássico, ou o que quer que seja, tem de se negociar. Ou quando a Panini quer que se edite um certo “core” de histórias que eles acham que são importantes estarem em PT para servirem como “referência”, idem. Etc… Uma escolha como a de uma lista de livros para uma colecção da Levoir é algo que já foi MUITO discutido, negociado, e que nunca é a melhor opção de qualquer um dos intervenientes. E normalmente temos tido em conta a opinião dos leitores, mas aqui a coisa é muito subjectiva, e a minha opinião é que é impossível agradar. Por exemplo, Avengers Forever surgiu SEMPRE como uma das histórias mais referenciadas pelos fãs, em fórums, emails enviados à Levoir (e a mim), em todo o lado. Confesso que não teria sido uma escolha minha, mas na Levoir o “ruído” que os leitores fizeram à volta deste livro fez com que a Levoir e o Público tivessem insistido bastante nele. mas agora que saiu andam muitos fás por aí a dizerem que era melhor ter sido outra escolha, etc… blablabla. No fim, alguém tem de decidir e ninguém fica satisfeito a 100%.
Contos de Fadas Marvel, edição que publica os primeiros trabalhos de autores portugeses para a Marvel, e X-Women que publica uma história ilustrada por Manara (entre várias, menos memoráveis) tem sido dois dos títulos incluidos na colecção Universo Marvel mais críticados e cujos critérios de selecção são dissecados por Hartivg de Freitas.
Por acaso, no Manara e no Contos de fada, os motivos foram outros. O Manara, simplesmente porque Portugal é um país de edição de BD europeia, e toda a gente concordou que um livro com Manara na capa ia relançar um pouco a colecção, tal como o do Moebius o fez há dois anos atrás. O “Contos de Fada” tinha outra ideia atrás, que era a de uma exposição sobre o trabalho dos portugueses que trabalham para a Marvel, para a qual existia uma espécie de OK prévio do festival da Amadora (dado em inícios de Maio). Mas como a Amadora pura e simplesmente deixou de responder a solicitações até à última semana de Setembro, para finalmente nos dizer que não (com comentários aliás, do género “Ah! Havia um livro planeado para essa exposição? Que giro, se calhar podíamos fazer para o ano, então”), o projecto caíu, A ideia era essa exposição servir de âncora a um artigo grande no Público exclusivamente sobre essa expo e sobre o livro. Não é que se tenha feito o livro POR CAUSA disso, mas poique quisemos encaixar um livro mais no final da colecção que motive alguma comunicação adicional, e que fosse motivo de relançar o interesse na colecção, porque como dizia o Pedro Cleto, as colecções começam a vender x, e depois vão-se esboroando irreversivelmente a menos que se faça mais comunicação – e a menos que essa despesa já esteja prevista antes do lançamento do volume um, procura-se fazer barulho sem gastar dinheiro. Neste caso, foi um livro que eu quis bastante fazer, porque é algo muito diferente do normal, mais do género do que a DC faz com os Elseworlds, e achámos que era interessante os leitores verem essa faceta, para além de que é um trabalho muito bem e bem feito. Mas neste em livro em particular, a Levoir também fez um investimento extra, já que aceitou aumentar o número de páginas dele para se incluir um caderno especial sobre o Making of do livro. Na verdade, aos poucos vou-me dando conta de que essas coisas pouco ou nada adiatam, tal como o editoriais, porque suspeito que ninguém lê os editoriais, e ninguém liga aos dossiers especiais…
Contos de Fadas era a grande aposta de Levoir para o AmadoraBD e foi um dos tópicos abordados na entrevista realizada com Nelson Dona, director do festival, publicada aqui no aCalopsia, onde são revelados em mais detalhe os motivos da organização ter abdicado dessa exposição.
Sobre a estranha vida das edições Marvel em Portugal, falaremos mais em detalhe em breve, agora que parece ser definitivo que a Panini abdicou de editar as revistas portuguesas deixando histórias a meio.
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