Existe agora uma assessora de imprensa, uma descentralização eficaz fora da Amadora (a descentralização dentro da cidade continua sem grandes resultados), o projeto de arquitetura é, particularmente no piso superior, muito bem conseguido, e voltaram os espaços de convívio (ainda que colocados em lugar demasiado próximo das filas para os autógrafos).
Ainda não foi desta que se corrigiram outras situações, como a falta de publicação dos trabalhos premiados nos concursos.
A aposta forte do evento mantém-se nas exposições. Há opções discutíveis (apresentar a exposição de cartoon de Henrique Monteiro no Fórum Luís de Camões em vez da mostra comemorativa dos 70 anos de carreira de José Ruy, por exemplo), mas a qualidade média das mostras é positiva. Há exposições verdadeiramente imperdíveis, como a dedicada aos 75 anos de Batman (com a excelente ideia da recriação de capas clássicas por desenhadores portugueses) ou Jim Curioso (a melhor exposição do AmadoraBD 2014), mas também há exposições menos conseguidas como BDLP (que merecia outro tratamento de forma) ou a exposição central Galáxia XXI – O Futuro da BD é Agora (que não convence em muitos dos conteúdos).
Esta exposição central merece alguma reflexão (que é, de resto, o que propõe). Não pela qualidade da seleção (qualquer exposição com originais de Edmond Baudoin é motivo para elogios), mas pela filosofia que lhe está subjacente. Olhando para os comissários da mostra, eu acrescentaria que mais pela parte Sara Figueiredo Costa do que pela parte Luís Salvado.
Sara Figueiredo Costa tem ideias muito definidas sobre banda desenhada, e, sobretudo, defende-as muito bem (e é muito profissional na abordagem). Isso não está em causa. O que se passa (e já se tinha passado quando ela, por ocasião do 20.º aniversário do AmadoraBD, escreveu a publicação comemorativa) é que aquilo que Sara Figueiredo Costa defende não é o que o AmadoraBD tem defendido. Basta ver a estrutura da exposição Galáxia XXI e a proposta de reflexão sobre a atualidade do universo da BD que propõe, e depois passar a ver a atualidade do universo da BD tal como é apresentada no resto do festival. Estamos, claramente, a viajar por duas galáxias diferentes, cada uma com indiscutíveis méritos e defeitos.
E ainda deve ser considerada uma terceira galáxia, já que, se na Galáxia XXI o futuro da BD é agora, na Exponor o presente da BD chega já amanhã, com a Comic Con Portugal.
Entre estes dois galáticos, é tempo de a Amadora fugir à condição de buraco negro. Mas em pleno AmadoraBD fica a prova evidente de que falta um verdadeiro projeto de banda desenhada à cidade da Amadora.
Depois de, nas últimas décadas, o festival ter levado a banda desenhada à Amadora, é a altura de se levar a cidade à banda desenhada, como imagem de marca e factor de identidade de algo que é jovem, moderno e que constitui ponto de encontro entre diferentes culturas (umas de substrato e outras de superstrato). O executivo camarário tem anunciado algumas medidas importantes para que a população ganhe consciência de que está na cidade da BD. No entanto, fala-se de aspetos sobretudo formais, faltando definir o que é, verdadeiramente, a BD na Amadora, e, mais concretamente ainda, saber se ainda há BD na Amadora para além dos dias do festival. É que para levar a cidade à BD em vez de levar a BD à cidade, o projeto tem de ir além do AmadoraBD, para passar a integrar os diferentes programas e vertentes da política municipal.
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