Espaços de liberdade e criatividade, os fanzines são um fenómeno que surgiu nos EUA e tardou a chegar a Portugal. Tendo nascido como um meio de comunicação de fãs para fãs, os fanzines evoluíram para se transformarem num meio de edição alternativa para diversas subculturas e um meio de autoedição para diversos autores.
A informação que existe sobre esse fenómeno é ainda algo esparsa, particularmente em Portugal, onde a sua divulgação oi inicialmente feita com alguns equívocos devido à dificuldade em efectuar pesquisa sobre esse fenómeno antes do surgimento da internet. Neste trabalho aborda-se o seu contexto internacional e sua importância sociocultural assim como se explicas alguns equívocos relativamente a este fenómeno que perduram, mesmo numa época em que a investigação é mais fácil de efectuar.
DEFINIÇÃO
O termo fanzines da aglutinação das palavras inglesas fan (fã) e magazine (revista).
Os fanzines começaram como revistas amadoras de fãs para fãs, mas ao longo do tempo o termo começou a designar todo o tipo de publicação não comercial geralmente dedicada a assuntos especializados e muitas vezes não convencionais. A abreviação é ‘Zine’ é também utilizada para designar os fanzines e possuí o mesmo significado
Fanzine (fan.zi.ne • ‘fænzi:n) Nome masculino Publicação alternativa, geralmente de carácter amador, destinada aos fãs de determinada manifestação cultural (por exemplo: banda desenhada, cinema, música, etc.) Do inglês fanzine «idem», a partir de fan, «fã» + [maga]zine, «revista» in Infopédia
Uma revista escrita por e para fãs. in Merriam-Webster
Zine : Magazine especialmente: uma publicação não comercial, muitas vezes caseira ou online, geralmente dedicada a assuntos especializados e muitas vezes não convencionais – Zine (como em fanzine) in Merriam-Webster
O sexo do fanzine

Desde o seu surgimento em Portugal, em 1972 que os fanzines possuíam o género masculino, tendo o neologismo sido adicionado ao Dicionário da Língua Portuguesa, da Porto Editora (8ª edição) em 1998 com esse género.
No Brasil o fanzine também é do género masculino, tal como em outros países latinos como frança e Espanha, contudo nos últimos anos do século XX, algumas pessoas começaram a dizer “a fanzine” ou “a zine” ignorando as regras de gramática. Apesar de existir algumas pessoas que tentem arranjar justicações elaboradas para a mudança do género do fanzine, a verdade é que a explicação é bem simples.
Por exemplo, o fanzine Vomit Core, cometeu erro na capa, ao ser confrontado com a situação Rudolo, o autor e editor, admitiu que “na altura em que [fez] esse fanzine tinha 16 anos. Tinha acabado de descobrir o mundo dos fanzines, e nem sabia sequer que fanzine, era um substantivo masculino.” No fundo essa é a explicação para a confusão linguística, embora exista sempre quem prefira insistir no erro a admitir que se enganou.
“Custa-me dizer isto – sou português… – mas nós, que somos um dos países europeus com maior índice de analfabetismo, e com elevada percentagem de iliteracia, tínhamos de ser os criadores desse absurdo linguístico que é mudar o género a um substantivo.”
– Geraldes Lino in Divulgando BD
As origens dos fanzines

Apesar de existirem publicações amadoras anteriores, aquele que é considerado o primeiro fanzine (enquanto formato e fenómeno cultural,) é o The Comet edita em 1930 pelo Science Correspondence Club e editado por Raymond A. Palmer e Walter Dennis.
Depois surgem outros fanzines de ficção científica, sendo também abordada a banda desenhada. Em 1933, Jerry Siegel e Joe Shuster publicam a primeira história do Super-homem, numa versão em que era um vilão careca, num conto ilustrado chamado “The Reign of the Superman” e publicado a na terceira edição do fanzine Science Fiction: The Advance Guard of Future Civilization, mais tarde, o personagem seria reformulado como um herói de banda desenhada para a revista Action Comics.
O termos fanzine só surgem em 1940, criado por Louis Russell Chauvenet que na edição de Outubro do fanzine Detour, se insurge contra a o termo fanmags, como eram conhecidas até então as estas publicações amadoras, e sugere o termo fanzine, como alternativa e em contraponto aos prozines (magazines profissionais).
Vários autores da época criaram zines, incluindo Ray Bradbury, Jack Williamson e Robert A. Heinlein. A década de 1940 viu o primeiro fanzine queer. Uma mulher chamada Edythe Eyde (também conhecida como Lisa Ben, um anagrama de “lésbica”) datilografou a primeira cópia de Vice Versa em junho de 1947, criando um total de nove edições antes de terminá la no ano seguinte.
Nesta época, as fotocopiadoras ainda não haviam sido inventadas, e os fanzines eram publicados utilizando métodos de reprodução rudimentars, como o mimeógrafo, também conhecido como duplicador de stencil. Esta máquina foi inventada em 1800 e permaneceu em uso até os anos 1960 e 1970, quando foi lentamente substituída pela fotocopiadora que foi introduzida pela primeira vez em 1949, mas só iria ter impa1cto nos mundo dos fanzines umas décadas depois.
O Mundo dos Fanzines
Durante a década de 1950 surgem vários zines dedicados à música folk e ao folclore, tendo sido proeminente Lee Hoffman que publicou vários zines de ficção científica assim como de folk, como Bad Day at Lime Rock, Caravan e Quandry. Artistas como Robert Crumb, Art Spiegelman e Jay Lynch começaram a encontrar suas vozes através dos fanzines, inspirados em revistas como a Mad e Cracked. Esses artistas fundaram o movimento underground da BD que revoluciona a industria dos comics.
Enquanto os zines folk continuam a existir ao longo da década de 1960, surgem também os primeiros zines dedicado ao rock and roll, tendo o Crawdaddy de Paul Williams sido o mais popular, ao ponto de tornar numa revista legítima. Em 1967 é editado o Spockanalia, o primeiro zine de Star Trek.
Os fanzines chegaram à na Europa, mais propriamente a França com a edição em 1962 do Giff-Wiff, fanzine do Club Des Dandes Dessinées. O fanzine contou a presença de entusiastas da BD como o jornalista Francis Lacassin e o cineasta Alain Resnais. Posteriormente, tornou se uma revista profissional e o clube mudou o nome para Centre d’études des Littératures d’Expression Graphique.

Destacam-se nesta época também o Phénix e Haga que, em conjunto com o Giff-Wiff, chegam a Portugal através das importações da livraria Quadrante. Na década de 1970 as lojas de fotocópias estavam amplamente disponíveis nos EUA e mudaram para sempre a produção dos zines ao possibilitar efectuar muitas cópias de forma rápida e barata, mudando a aparência dos zines. A cena punk tornou-se o principal centro da cultura zine durante os anos 70.
Os fanzines assumiram um estilo sujo e DIY (do it yourself / faça você mesmo). Alguns dos mais populares foram Sniffin’ Glue, 48 Thrills e Bondage. A maioria dos trabalhos saiu de Nova York, L.A. e Londres. Os fanzines punk continuaram até a década de 1980, foi a época de ouro dos fanzines em fotocópias mal-amanhadas que se espalham um pouco por todo o mundo incluindo Portugal, onde o fenómeno tardou a chegar.
Protozines & Censura
A história dos fanzines em Portugal começa oficialmente em 1972, apesar de por vezes existir quem lhe queira dar génese anterior devido ao Melro de José Garçês, editado pela primeira vez em 1944 e contando com 21 edições e uma segunda série de três números, O Melro era um folheto de 4 páginas, inicialmente com uma tiragem de um exemplar e na segunda série com uma tiragem de 50 exemplares em litografia.
Contudo, como já mencionei era um folheto, e não uma revista amadora, e apesar de o termo fanzine ter evoluído para englobar toda e qualquer publicação amadora, a verdade é que o Melro não se encaixa dentro daquilo que são as características dos fanzines enquanto publicação e movimento quer na sua época quer na época em que eles chegam a Portugal, aliás a sua existência é quase esquecida até por quem o defendeu como sendo primeiro fanzine, português.
Em 1988 num dos primeiros textos publicados em Portugal sobre fanzines, Geraldes Lino atribuiu ao Melro o título de primeiro fanzine, mas em textos posteriores incluindo no livro Dédalo dos fanzines, escrito em parceria com Leonardo de Sá, reconhece que os fanzines só começam a ser editados em Portugal em 1972 com o Argon.

Contudo o texto de 1988 foi utilizado por Henrique Magalhães na sua tese de mestrado sobre edições alternativas e fanzines brasileiros, que incluí uma passem sobre Portugal, e que foi editado como livro sobre o título de “O rebuliço apaixonante dos fanzines”.
O facto de os fanzines terem demorado 42 anos e não 14, a chegar a Portugal é fácil de compreender quando se tem em consideração da realidade política em que o país viveu ao longo de décadas. A partir de 28 de maio de 1926 Portugal viveu num regime ditatorial chamado de Estado Novo, uma das componentes desse governo era a Censura da opinião pública.
Os condicionamentos à impressa surgem logo após o 26 de maio com a aprovação de uma lei de imprensa (Decreto nº 12.008 de 2 de agosto de 1926) que se manterá em vigor até 1972. Em 1950 é publicada as Instruções para a Literatura Infantil e é criada a Comissão para a Literatura Infantil e Juvenil (CEPLIJ) a que se sucede a Comissão da Literatura e Espectáculos para Menores (CLEM) que perdurou até ao fim do Regime em 1974.
Entre 1950 e 1956, época em que João Serras e Silva é presidente da CEPLIJ e posteriormente da CLEM é exercida forte repressão censória sobre as publicações infantojuvenis, que vai abrando após a morte de Serra e Silva e de Fernanda de Castro ser nomeada para a presidência da comissão, num consulado que corresponde a uma gradual perda de relevância da CLEM. Em paralelo à censura existia ainda a Mocidade Portuguesa que era a responsável pelas atividades circum-escolares, e cuja frequência era obrigatória, até 1971, pelo que não é de estranhar que até 1972 não tenham existido publicações amadoras em Portugal.
O Fanzines Portugueses
Em janeiro de 1972 um grupo de jovens do Liceu Gil Vicente edita o Argon, o primeiro fanzine português, produzido a stencil com os desenhos a serem realizados diretamente na cera, no segundo número já seria editado com stencil eletrónico que permitia que os desenhos originais fossem em papel. O terceiro número já foi editado em editado em offset e teve distribuição em outros liceus. Existiram ainda mais dois números, mas a aventura não oi para além do número cinco porque “os apoios financeiros desaparecem, a hipótese de publicidade nunca se concretiza, os colegas autores entram em percursos de vida diferentes”.
Contudo, o Argon não foi único zine a ser editado em 1972, Saga (Lisboa); Quadrinhos (Damaia); Copra (Coimbra); P.Druillet/P.Caza (Lisboa); Orion (Moçambique); Ploc (Moita) e Yellow Kid (Amadora), foram todos editados nesse ano e o frenesim fanzinistico continuou no ano seguinte.
É um movimento que apresenta diferentes tipos de fanzines (uns que publicam BD, outros que publicam artigos sobre BD e outros que publicam quer BD quer artigos). Para António Aspra de Matos, editor do Impulso (1973, Torres Vedras) os fanzines surgem devido ao abrandamento da censura e beneficiara, da “divulgação, nas páginas da revista Tintin, do movimento de fanzines de Banda Desenhada que [espoletava] na Europa francófona, muito na senda da afirmação criativa e libertária do pós-Maio de 68.
Vasco Granja foi um dos responsáveis pela divulgação dessas edições de tipo “underground”, quer na secção de notícias daquela revista, quer na sua colaboração com colunas de informação sobre BD, que começavam a surgir regularmente em páginas da imprensa nacional, com destaque para o jornal “A Capital” e o seu suplemento “Quadradinhos”.”


Alguns fanzines portugueses alcançaram marcas notáveis, a exemplo de Protótipo e o Boletim do Clube Português de Banda Desenhada, fanzine que começou a ser editado em 1977 e continua até ao presente. Em 1978 começaram a ser editados os primeiros fanzines punk, com a edição de Desordem Total, e durante a década de 80 começam a aparecer outros zines dedicados às mais diversas temáticas políticas e musicais refletindo as diversas tribos urbanas de um país que começava a abrir-se ao mundo e tinha aderido à Comunidade Europeia.
A nível da BD os anos 1980 foram prolíficos com publicações sendo lançadas em todo o país. Dessa época temos Comicarte, Hyena, Ruptura, Original, Eros, Dossier Top Secret, Cruzeiro do Sul e Clubedelho todos com BD e artigos de divulgação, existe ainda o premiado Banda que em conjunto com o Epitáfio se iriam tornar em casos de estudos da metamorfose dos fanzines e métodos de edição na última década do século XX.
PROZINES E EVOLUÇÕES

A década de 90 traz para o léxico fanzinístico português um novo termo que não era novo e cuja utilização em Portugal é geralmente incorreto. Estamos a falar do “prozine”, termo que também foi cunhado por Louis Russell Chauvenet para distinguir as “profissional magazines” dos fanzines.
Contudo em Portugal esse termo oi utilizado como significando fanzine profissional ou fanzine editado por profissionais, algo que não tem repercussão em outros países, em particulares se formos ao país onde estes neologismos surgiram e utilização que lhes é dada, até a nível institucional.
Os Prémios Hugo, são o principal prémio de ficção cientifica nos Estados Unidos e são atribuídos desde 1953, devido à importância que os fanzines tiveram para a promoção deste género literário foi instituído em 1955 o prémio de melhor fanzine e, em 1984, o prémio de melhor semiprozine, para as publicações que são consideradas semi-profissionais devido ao número de edições publicadas e ao facto de remunerarem ou não os colaboradores. Esclarecido esta questão de terminologia, continuemos com a história.
Apesar de desde o surgimento dos fanzines em Portugal, em 1972, terem existido fanzines impressos em offset com boa qualidade, no início da década de 1990 surgem em Portugal os projectos como Azul BD 3 e Quadrado que apesar de serem semi-amadoras possuem tiragem maiores que é usual nos fanzines e um cuidado gráfico mais profissional, em parte devido ao surgimento do Adobe Pagemaker que permite efectuar paginação com qualidade profissional utilizando só um computador. Estes fanzines semiprofissionais não vingam, mas marcam o início de um profissionalização do fanzines de BD, que desaparecem quase por completo enquanto revista antológicas com diversos autores, para serem substituídos por edições em álbuns que por vezes eram só pequenas revistas de 16 páginas como a colecção Primata (da Polvo) e LX Comics (da Bedeteca de Lisboa). É um renascer da BD portuguesa, depois de terem desaparecidos todas as revistas e da edição em álbum, de autores portugueses, ser uma raridade.


É neste contexto que surgem editoras como a Pedra No Charco, Polvo, Mundo Fantasma, Nova Comix e a Associação Chili Com Carne, projectos de editores de fanzines que procuravam profissionalizar-se, editar obras com uma melhor qualidade gráfica e providenciar alguma remuneração aos seus colaboradores, embora sem muito sucesso nessa última parte. O surgir também a edição digital, que permite ter melhor qualidade de impressão com tiragens mínimas, faz com que a diferença entre uma edição amadora e um profissional começa a esbater-se ainda mais, existindo edições profissionais com tiragem e qualidade idêntica ás edições amadoras, sendo a única diferença a opção por ter um ISBN ou não.
“Se calhar são os próprios Fanzines que estão a mudar, porque com a possibilidade de editar melhor quantidades mínimas há quem sonhe que faz revistas com tiragem de 150 exemplares e não se lembra de lhes chamar fanzines.”
– Teresa Câmara Pestana in Divulgando BD
Porque, enquanto em outros países a diferenciação entre uma edição amadora e profissional é a remuneração dos colaboradores em Portugal é só uma questão formal, até porque quer a nível de BD quer de literatura existem editoras profissionais com tiragens pequenas o que não permite grande remuneração dos autores. Do mesmo modo que a tecnologia vem permitir um aumento da qualidade dos fanzines também os vai tornar obsoletos enquanto modo de divulgação.
Sufixozine
Com a crescente popularidade da internet no final do século XX e o seu crescimento exponencial no século XXI esta torna-se no lugar preferencial para a divulgação de notícias das diversas tribos urbanas e culturais. Primeira as message boards e newsgroups torna-se no meio preferencial para os fãs se encontrarem e trocarem opiniões, depois surgem as redes sociais ainda mais omnipresentes que esbatem por completo a distância entre autores e leitores.
Os jornais e revistas são afectados pelo surgimento da internet mas, o impacto nos fanzines é ainda maior, sendo publicações com distribuição limitada, os blogues e websites tornam-se num meio preferencial para promover os conteúdos que anteriormente surgiam nas revistas amadoras.
Se em Portugal, a profissionalização dos fanzines tinha sido feita a Custa dos projectos antológicos (revistas) em favor dos projectos individuais (álbuns) o surgimento da internet agrava essa situação, em parte porque a maioria da divulgação passa a ser feita em blogues e sites, e mesmo críticos e divulgadores que anteriormente colaboravam em fanzines passam a ter os seus espaços individuais onde publicam os seus textos e as vozes a nível da critica e divulgação ficam mais dispersas, e não surge nenhuma publicação digital que consiga ter a qualidade literária e de investigação que era possível encontrar em alguns fanzines da décadas de 1980 e 1990.
Surgem também os termos e-zine e webzine, que são difíceis de definir e porque é uma tentativa de atribuir a uma terminologia derivada de edições analógicas para publicações digitais que funcionam em complemento ou como uma evolução/extensão de um projecto pré-existente. O fanzine Bizarro, que começou a ser publicado em 1997, chega a internet com o debelar do século XX e publica BD, contos, ilustrações e críticas durante um breve período de tempo. Os Positivos que tinham surgido em papel também na década de 90, mudam-se para um site onde o autor vai serializando BD, publica ensaios sobre BD, anarquismo e veganismo e ocasionalmente edita uma edição de papel com esse material.
Enquanto neste projectos a componente digital é uma extensão da existência física, existe outro que são mais convencionais e editam uma edição de papel em conjunto com uma digital em PDF, como é o caso do Minizine e H-Alt, este último projecto acaba também por publicar algum material adicional no site apesar do foco ser as edições do fanzine.

Por outro lado, o The Lisbon Studio Mag é o exemplo de uma edição que existe só em formata digital.
Isto não significa que exista um fim dos zines mas o surgimento dos sufixozines, em que o sufixo zine é adicionado a qualquer palavra inglesa e assim surgem artzine, graphzine, crudzine, slimzine e outros zines.
Na maioria dos casos estes termos indicam formas de edição amadora que não são revistas como folhetos e postais. Os fanzines tornam-se menos coletivos e mais individuais, como é um exemplo flagrante o Clube do Inferno, um colectivo de autores que editou fanzine durante um curto espaço de tempo no início da década de 2011.
Apesar de ser um colectivo publicava edições individuais não existindo um projecto de revista (fanzine) comum em que todos colaboravam.
Existe também um fenómeno extrictamente português que é os fanzines de banda desenhada passarem a ser associados com um só tipo de publicações, a dita “BD alternativa” que caracterizava a colecção LX Comics e associados. Este facto faz que fanzines que tinham outras influências acaba em por rejeitar o título de fanzine e optar por chamarem as suas edições de revistas ou álbuns apesar de também serem publicações amadoras com baixas tiragens.
Este caso acaba por ser o maior falhanço do fanzinato português que ao invés de ser criado um circuito independente para fanzines e pequenos editores cria um sistema antropofágico que não reflete nem promove a diversidade que chegou a existir e que ainda sobrevive, em alguns casos, da edição independente.
Em Portugal o ao contrário de outros países criou-se um estigma de que um fanzine e/ ou edição de independente tinha de corresponder a um determinado género ao invés de se ser encarado com um meio de edição de autores e editores que partilham as mesmas condições a nível de edição e que procuram ultrapassá-las em conjunto através de eventos e sistemas de distribuição alternativos.
O Fanzines académico e institucional
Se no início os fanzines eram um fenómeno marginal e pouco estudado ao longo do tempo eles oram ganhando espaço e reconhecimento pela sua relevância enquanto fenómeno cultural. No exterior o estudo dos fanzines começa como a publicação do trabalho seminal de Frederic Wertham, em 1973, “The World of Fanzines: A Special Form of Communication” editado pela Southern Illinois University Press.
Como a chegado dos fanzines a Portugal é tardia, mesmo sucede com o seu estudo, para além disso os primeiros textos publicados em fanzines e revistas e possuíam algumas lacunas devido ao desconhecimento que existia do fenómeno, aaaimm como a dificuldade em traçar a sua geneologia duaran as décadas de 1980 e 1990.
O primeiro livra a abordar o fenómeno fanzinistico português é da autoria de Henrique Magalhães e centra-se essencialmente no seu impacto no Brasil, com uma pequena abordagem sobre o fanzines em outros países, incluindo em Portugal.
A teses “Os fanzines de histórias em quadrinhos: o espaço crítico dos quadrinhos brasileiros” foi publicado em 1990 e posteriormente editada como livro com o título “O Rebuliço dos Fanzines”.
Em 1997, Geraldes Lino e Leonardo de Sá publicaram um catálogo dos fanzines editados em Portugal entre 1972 e 1997, com o título “Dédalo do Fanzines”.
No século XXI, que começam a ser publicadas teses nacionais com os ”Fanzines e as novas tecnologias: Possíveis contribuições da internet para as publicações alternativas da década de 1980”, Haydée Crystina Felippe Borge, Faculdade de Belas Artes do Porto (2009) e “A Cultura dos Fanzines na Cidade do Porto”, de Vanessa Ramos Neves Faculdade de Belas Artes do Porto (2017) “Good Save The Portuguese Fanzines” foi publicado pela Universidade do Porto em 2014, sendo escrito por Paula Guerra e Pedro Quintela que também desenvolveram o assunto em “Culturas de resistência e média alternativos: os fanzines punk portugueses”, editado na Sociologia, Problemas e Práticas (2016).
Para além do estudo dos fanzines enquanto fenómeno editorial começa a ser desenvolvido um esforço para a sua preservação com a criação da fanzinoteca (biblioteca de fanzines) em Poitiers (França) em 1984. A primeira fanzinoteca portuguesa só foi inaugurada em Coimbra, em 2012, nas instalações da Associação Arte à Parte, possuindo o nome de Fanzinoteca Uzine Fanzine, uma referência ao blogue de Fernando Ferreira que cedeu o espólio, em conjunto com Nuno Loureiro, editor do extinto zine Vortex. Em 2019 a Camara Municipal da Amadora criou a Fanzinoteca Geraldes Lino, inserida na Bedeteca da cidade, e tendo como base o espólio que o Lino tinha doado a camara antes de falecer.
Em jeito de conclusão
Os fanzines surgem na em 1930 no EUA como um meio de comunicação realizado de fãs para fãs, mas cedo começam a surgir autores que os utilizam também para a divulgação de trabalho original ao invés de se limitarem a debater ou divulgar criações alheias. Com a evolução do meio de impressão, vai tornando se mais fácil publicar fanzines com tiragens, em particular com a difusão das lojas de fotocopiadoras que alimentam os fanzines punk da década de 70 e 80, criando uma estética DIY que fica intimamente ligada aos fanzines.
Em Portugal os fanzines demoram a chegar e os primeiros, de banda desenha, começam a ser publicados em 1972 e em 1978 é editado o primeiro fanzine punk que assinala a chegada dos fanzines de música e dedicados as artes em geral que iram ser importantes na década de 80, quando começam a surgir novas tribos urbanas e géneros musicais, sinais de um país que começa a abrir-se ao exterior após décadas de ditadura seguido por um período pós-revolucionário onde imperavam as canções de intervenção.
Na década de 90 existe uma profissionalização dos fanzines, fruto da evolução tecnológica a nível de paginação e edição. Algo que se nota em particular a nível da BD de autores portugueses cuja edição a nível de editoras tinha desaparecido quase por completo, sobrevivendo só nos fanzines, sendo aí que começam a nascer projectos de novas editoras profissionais, contudo existe um desaparecimento do fanzine colectivo e começa a imperar o álbuns e edições amadoras de autores individuais.
A proeminência que a internet como meio de comunicação na viragem do século também contribui para do fanzine-revista, porque a internet possibilita através dos blogues e websites a o desenvolvimento de projectos de divulgação com um alcance maior que revistas de papel com uma edição limitada.
E mais um factor que contribui para o desaparecimento do fanzine enquanto meio (de comunicação) para se tornar um fim em si mesmo, enquanto objecto arte. Ao longo do tempo o fanzine e a sua abreviação, zine, deixam de significar só revista como aquando do seu surgimento para englobarem todo e qualquer tipo de edição independente, incluindo folhetos e postais. O fanzine começa também a ter o reconhecimento enquanto fenómeno de comunicação e elemento de divulgação cultural, começando a ser preservado através de fanzinotecas e estudo a nível académico e mantendo o lugar de laboratório de experiências para autores e editores, mas sem o lugar exclusivo que tinha antes do surgimento de novos métodos de edição eletrónica que, em parte, tornaram o papel em algo obsoleto para quem pretende alcançar um publico mais vasto com poucos meios financeiros.
Este texto foi originalmente publicado no fanzine Zinado que teve um edição e divulgação limitada em Abril de 2022, ano que se comemoravam os 50 anos dos fanzines em Portugal. Chegou a ser considerado um expansão do texto para ser editado como livro que nunca se materializou. Fica aqui esta menção ao cinquentenário dos fanzines que passou quase despercebido.