Prémio Nacional de Banda Desenhada distingue António Jorge Gonçalves e gera críticas às escolhas do júri

Antes da publicação oficial da lista de vencedores, o Prémio Nacional de Banda Desenhada (PNBD) já gerava expectativas por marcar apenas a segunda edição desta distinção criada pelo Ministério da Cultura, da Juventude e do Desporto. Conhecidos os resultados, a maioria das reações foi positiva, embora não tenham faltado vozes críticas relativamente às escolhas do júri.

António Jorge Gonçalves recebe Prémio Nacional de Banda Desenhada pela carreira

O ilustrador e autor António Jorge Gonçalves foi distinguido com o Prémio Nacional de Banda Desenhada, na categoria Carreira, atribuído pela Direção-Geral do Livro, dos Arquivos e das Bibliotecas (DGLAB). O autor foi selecionado entre 11 candidatos.

Segundo o júri, constituído por Sara Figueiredo Costa, Pedro Cleto e Sara Ludovico, a distinção reconhece uma trajetória “permanentemente inovativa e eclética, que nunca estagnou ou se acomodou a um tipo de traça”. O painel destacou ainda o trabalho experimental desenvolvido pelo autor ao longo dos anos, tanto na exploração da cor e dos materiais como das linguagens narrativas, bem como a reflexão consistente sobre os limites e as possibilidades da banda desenhada.

Na categoria Obra do Ano, o vencedor foi Dormindo entre Cadáveres, de Luís Moreira Gonçalves e Felipe Parucci, publicado pela Zigurate. Entre as 15 obras candidatas, o júri destacou o livro como um testemunho relevante sobre a pandemia de COVID-19 no Brasil, em particular na região amazónica, abordando o tema através de uma perspetiva simultaneamente pessoal e crítica.

Já o Prémio Inovação em Banda Desenhada foi atribuído a Rumo ao Eclipse, de Ana Matilde Sousa, Ana Simões, André Nóvoa e Hugo Soares, editado pela Chili Com Carne. Escolhida entre 19 candidaturas, a obra foi elogiada por transformar uma banda desenhada pré-existente numa experiência de role-play, explorando novas possibilidades narrativas e editoriais.

Cada um dos prémios tem um valor de 10 mil euros. O vencedor da categoria Obra do Ano recebe ainda um apoio adicional de 1.500 euros para participar no Festival Internacional de Banda Desenhada de Angoulême, em França.

Criado em outubro de 2025 pelo Ministério da Cultura, da Juventude e do Desporto, o PNBD pretende valorizar e promover a criação artística e literária no domínio da banda desenhada portuguesa.

Citada no comunicado oficial, a ministra Margarida Balseiro Lopes afirmou que “os autores distinguidos demonstram a diversidade, a qualidade e a capacidade de inovação da banda desenhada portuguesa”, acrescentando que o prémio “reconhece esse talento e contribui para uma maior visibilidade da criação artística nacional, dentro e fora de Portugal”.

A cerimónia de entrega dos prémios decorrerá a 18 de outubro, Dia Nacional da Banda Desenhada Portuguesa, durante o festival Amadora BD.

As críticas de Nuno Neves

Apesar da receção globalmente positiva dos resultados, houve também críticas. No blogue Notas Bedéfilas, Nuno Neves contestou as opções do júri, considerando que a narrativa construída em torno dos vencedores não corresponde à realidade da produção nacional.

“Olha, eu acho uma fantochada! E não há jogo de palavras suficiente que fundamentem estes resultados.

No Prémio Carreira, e não desvalorizando aqui o artista António Jorge Gonçalves, a verdade é que o seu trabalho se centra sobretudo em ilustração e cartoon. Não tem assim uma obra tão interessante nem vasta em banda desenhada. Mas o júri lá conseguiu ver alguém que nunca estagnou ou se acomodou a um tipo de traço.

Quanto ao prémio de Obra do Ano, Dormindo entre Cadáveres é o resultado de um trabalho de um argumentista português e um desenhador brasileiro, com uma narrativa centrada no espaço amazónico, e que foi publicado originalmente no Brasil. Se a intenção destes prémios visa reconhecer o mérito dos autores nacionais e promover a internacionalização da banda desenhada portuguesa, parece-me que o caminho aqui está a ser feito de forma contrária. Mas como no ano passado só houve por cá cerca de 50 obras de autores 100% nacionais publicadas por editoras portuguesas originalmente no mercado nacional, não nos vamos reduzir.

Por último, no Prémio Inovação, temos um projeto de role-play que é, sem margem para dúvidas, um contributo fortíssimo ao nível visual, narrativo e editorial, abrindo caminhos nunca antes navegados pela banda desenhada nacional. Ou, nas palavras de quem percebe disto, “expande as possibilidades do meio sem o simplificar”. Aliás, o que não falta por aí no meio bedéfilo são referências e análises a este trabalho completamente inovador.”

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