Foi lançado a 15 de agosto Nau Negra: The Last Black Ship, o mais recente trabalho de Fernando Relvas, uma obra que recupera um período particularmente rico da história marítima portuguesa para construir uma narrativa de ficção em banda desenhada.
Desenvolvido com recurso a uma campanha de crowdfunding, Nau Negra decorre no início do século XVII, entre portugueses, japoneses e holandeses, numa época marcada pela expansão marítima, pelo comércio e pelos conflitos que atravessavam as rotas do Oriente.
Apesar de partir de acontecimentos e personagens historicamente documentados, Fernando Relvas deixa claro que Nau Negra não pretende ser uma reconstituição histórica nem uma obra de banda desenhada histórico-didáctica. É, antes de tudo, uma obra de ficção que utiliza um período concreto da História como cenário para a sua narrativa.
Entre a História e a ficção

A investigação histórica teve, contudo, um papel importante na construção da obra. Entre as principais referências encontra-se o historiador britânico Charles Ralph Boxer, sobretudo O Grande Navio de Amacau, de onde Relvas retirou acontecimentos que servem de base ao enredo.
Entre estes encontram-se o destino trágico da nau Madre de Deus, capitaneada por André Pessoa e destruída à saída de Nagasaki, em 1610, depois de três dias de combate, e as peripécias da Nossa Senhora da Vida, comandada por Lopo Sarmento de Carvalho, oito anos mais tarde.
A estes elementos junta-se a figura de um aventureiro japonês, ideia que o autor encontrou inicialmente numa referência à presença de japoneses entre os corsários de Argel, nas primeiras décadas do século XVII. A investigação levou-o posteriormente a descobrir uma realidade histórica mais complexa do que a imagem convencional de um Japão completamente fechado ao exterior.
Outro elemento fundamental na concepção visual de Nau Negra foram os biombos namban do Museu Nacional de Arte Antiga. Produzidos no Japão no início do século XVII, estes biombos representam a chegada dos portugueses ao Japão e constituem, para Relvas, verdadeiras narrativas gráficas, onde se cruzam informação histórica, observação e episódios de carácter mais humano e até caricatural.
Essa influência estende-se à representação das embarcações. O autor recorreu aos diferentes modelos de naus representados nos biombos namban para definir a aparência dos navios presentes na história, embora sem procurar uma reprodução excessivamente rigorosa ou pormenorizada.
Um retrato pouco idealizado da época
A preocupação de Relvas não se limita às embarcações ou aos acontecimentos históricos. O universo de Nau Negra procura também transmitir algumas das mentalidades e comportamentos do período.
O autor recupera, entre outras fontes, relatos de Diogo do Couto, Frei Paulo da Trindade e António de Oliveira Cadornega, que ajudam a revelar uma época marcada pela violência, pela escravatura, pelas guerras religiosas, pelo martírio e por uma relação muito diferente com a morte e o sofrimento.

O resultado não procura suavizar esse contexto histórico. Pelo contrário, referências a execuções, tortura, relíquias, escravatura e violência fazem parte da construção de um mundo distante dos valores contemporâneos.
Ao mesmo tempo, Relvas não procura reproduzir integralmente a linguagem do século XVII. Uma das excepções é o sermão do frade italiano, baseado num texto de Frei Tomé de Jesus. No restante diálogo, o autor optou por uma abordagem mais livre, utilizando inclusivamente os pronomes de tratamento para evidenciar as diferenças sociais entre os portugueses.
Entre os documentos que serviram de inspiração encontra-se ainda uma carta de Diogo do Couto, datada de 23 de dezembro de 1605, onde é relatado um episódio em que um grupo de japoneses cristãos intervém contra holandeses que saqueavam uma propriedade portuguesa. O episódio contribuiu para reforçar uma das ideias presentes na obra: a percepção contemporânea da rapidez e determinação com que os japoneses enfrentavam situações de perigo.
Uma viagem pelo Oriente do século XVII
Nau Negra: The Last Black Ship constrói assim uma aventura ficcional sobre um período de intensas relações entre diferentes culturas e potências marítimas. Através da ficção, Fernando Relvas recupera acontecimentos reais, relatos de viajantes, documentos históricos e representações artísticas para criar a sua própria interpretação daquele mundo.
A obra estava inicialmente pensada para uma edição em português, mas, por enquanto, Nau Negra: The Last Black Ship encontra-se disponível apenas em inglês, numa edição da El Pep, com um preço de venda ao público de 17 euros.
Mais do que uma reconstituição do passado, o livro apresenta-se como uma leitura pessoal de Fernando Relvas sobre uma época da História portuguesa frequentemente representada na banda desenhada, mas aqui abordada através da aventura, da ficção e do imaginário do autor.
