Em Dezembro de 2011, Marcos Farrajota publicou no blogue da Chili Com Carne um texto intitulado «Fechei-te Essa Cona Toda!», dedicado a Abri-te Essa Cona Toda!, um projecto de fanzine de banda desenhada e ilustração dedicado à pornografia hardcore. O projecto acabaria por ficar marcado tanto pelo seu percurso atribulado como pela discussão que o texto de Farrajota desencadeou nos comentários do blogue.
Descrito por Farrajota como «um dos fanzines mais underground de sempre», Abri-te Essa Cona Toda! nasceu, segundo o seu relato, como uma «piada de tasca» que rapidamente ganhou dimensão e funcionou como catalisador de uma intensa actividade criativa durante algumas semanas. O projecto reunia trabalhos de vários autores que optavam por assinar com pseudónimos, entre eles The Milky Way, Jucifer Hot Pussy, Brunão, Piça da Aldeia, Boca Doce, Alex, Ramon Jamon, Anita Galdéria, Gouveia Holmes e Benvindo Fonseca, além de desenhos atribuídos a um autor checo anónimo, encontrados num quarto em Praga.
A publicação deveria assumir o formato de um fanzine A5, mas a sua concretização foi dificultada pelos desentendimentos entre os participantes. Segundo Farrajota, a ausência de uma coordenação editorial e a tentativa de impor diferentes visões sobre o objecto acabaram por contribuir para o seu fim. O relato menciona ainda episódios de paranoia, ameaças judiciais, consumo de drogas e impedimentos colocados por alguns dos editores e autores à circulação do projecto.
O fanzine terá ainda passado pelo Crack e esteve previsto o seu lançamento na última Feira Laica, embora tal nunca tivesse acontecido. O próprio percurso da publicação permanece, por isso, algo nebuloso: Farrajota questionava quantos exemplares teriam sido produzidos, quantos teriam sido vendidos, onde teriam circulado e qual o destino dos exemplares que não chegaram a ser distribuídos.
É neste contexto que surge a discussão com Valter, dos Os Positivos.
O comentário de Valter partia do título, da imagem associada ao projecto e da própria referência aos desentendimentos entre editores e autores. Em tom provocatório, colocava várias hipóteses sobre a natureza do fanzine: seria «o canto de cisne dum machismo latente do mundo dos comix», um exercício de irreverência, uma provocação pós-moderna, uma manifestação de shock value gratuito ou simplesmente uma estratégia de SEO?
A questão do SEO não era apresentada de forma abstracta. Valter relacionava-a com a experiência do seu próprio projecto, XXX-Irritante, explicando que a utilização do triplo X lhe tinha trazido visitantes, mas levantando a questão de saber se esse tráfego correspondia efectivamente ao público pretendido.
A resposta de Farrajota não tardou. Rejeitando a leitura de Valter sobre o projecto, salientou que entre os colaboradores se encontravam várias mulheres, afirmando que estas constituíam quase metade dos artistas envolvidos. Acrescentava que Valter não tinha visto o objecto — e que, portanto, não deveria fazer comentários sobre o seu conteúdo ou sobre questões como o machismo a partir de informação indirecta.
Valter voltou então ao assunto para esclarecer que o seu comentário tinha sido formulado como uma pergunta e não como uma afirmação. A discussão passou, assim, a centrar-se não apenas no fanzine mas também na própria interpretação do comentário: até que ponto era legítimo retirar conclusões sobre uma publicação que não tinha sido vista? E até que ponto o título e o contexto em que o projecto era apresentado eram suficientes para suscitar determinadas questões?
A troca é hoje particularmente interessante por documentar algumas das tensões existentes no circuito independente de banda desenhada português naquele período. Abri-te Essa Cona Toda! parecia reunir várias características da cultura dos fanzines: produção colectiva, recurso a pseudónimos, circulação limitada, ausência de estruturas editoriais convencionais, humor, provocação e uma relação pouco definida entre criação artística e brincadeira.
Ao mesmo tempo, a discussão introduzia uma questão que começava a ganhar uma importância crescente: a forma como estes projectos eram apresentados e encontrados na internet. O título do fanzine, deliberadamente provocatório, podia funcionar simultaneamente como declaração estética, piada interna, instrumento de choque e mecanismo de atracção de visitantes através dos motores de pesquisa.
Há ainda uma ironia no percurso de Abri-te Essa Cona Toda!: um projecto aparentemente concebido para provocar acabou por gerar uma discussão pública antes de conseguir afirmar-se plenamente enquanto publicação. A ausência de uma edição com circulação regular contribuiu para transformar o fanzine num objecto difícil de reconstruir, cuja história sobrevive sobretudo através dos testemunhos dos seus participantes e dos registos deixados online.
Mais de uma década depois, permanecem algumas das perguntas colocadas por Farrajota no texto original: quantos exemplares foram efectivamente produzidos? Quantos chegaram a circular? Onde foram vendidos? O que aconteceu aos restantes?
É precisamente essa combinação de existência física incerta e abundância de vestígios digitais que torna Abri-te Essa Cona Toda! um episódio curioso da história dos fanzines portugueses. A polémica entre Valter e Marcos Farrajota é apenas um fragmento dessa história, mas permite observar um momento em que a edição independente, a provocação artística, a cultura de fanzine e a nascente lógica de circulação online se cruzavam de forma particularmente desordenada.
No fim, Abri-te Essa Cona Toda! parece ter ficado algures entre o objecto artístico, a piada colectiva e a publicação fantasma. E talvez seja precisamente essa condição incompleta que explica a persistência do seu interesse: mais do que uma publicação facilmente catalogável, tornou-se um episódio que continua a existir através das memórias, das discussões e dos poucos documentos que sobreviveram.
O texto original no blog da Chili foi apagado, mas está preservado no Wayback Machine, a reflexão do Valter ainda está publicado no site d’Os Positivos.
