O erotismo pornográfico d’A Contorcionista

AcontorcionistA é um projecto editorial de carácter erótico criado pelo Grupo Empíreo, Sociedade Anónima de Recreio e Prazer, publicado pela MMMNNNRRRG e promovido e comercializado pela Associação Chili Com Carne. Apresentada como uma “Rapsódia Erótica”, a série distingue-se menos por uma narrativa contínua do que pela exploração das possibilidades do objecto gráfico.

Ao longo de quatro volumes, AcontorcionistA assume quatro formas diferentes: O Manifesto, Calendário, Cartão-Postal e Baralho. Cada publicação propõe uma relação diferente entre o conteúdo, o leitor e o próprio suporte, afastando-se do formato tradicional do livro de banda desenhada.

O primeiro volume, O Manifesto, estabelece as bases do projecto. Trata-se de um livro ou folheto de carácter erótico, com 48 páginas e aproximadamente 16 × 23 cm, que funciona como introdução ao universo da série. Mais do que apresentar uma história convencional, o objecto estabelece uma linguagem gráfica e uma atitude que serão desenvolvidas nos volumes seguintes.

O segundo movimento é o Calendário, publicado em 2012. A série passa aqui para um objecto de utilização quotidiana, relacionando o erotismo com a passagem do tempo. A edição teve uma tiragem de 200 exemplares, com 24 páginas em formato A3, e foi apresentada num contexto associado ao Dia dos Namorados, incluindo uma exposição de originais. O calendário demonstra já uma das características fundamentais do projecto: a utilização do suporte como parte integrante da proposta artística.

Com o terceiro volume, Cartão-Postal, a publicação torna-se ainda mais próxima de um objecto de comunicação. Descrito como um folheto destinado à “transmissão não electrónica de mensagens com um conteúdo libertino”, apresenta 16 páginas e quatro encartes. A edição teve uma tiragem de 300 exemplares. A própria ideia de postal é transformada em matéria artística, recuperando uma forma de comunicação física e pessoal e colocando-a ao serviço do universo erótico da série.

O quarto e último movimento, Baralho, abandona definitivamente a estrutura do livro. A edição apresenta-se como um jogo composto por 68 cartas, acompanhado por regras que podem ser descobertas ou mesmo criadas pelos jogadores. A publicação é descrita como “um jogo apolíneo para jogadores dionisíacos”, conjugando uma estrutura formal com a dimensão lúdica e transgressora do projecto.

O Baralho teve uma tiragem de apenas 200 exemplares e apresenta-se num estojo com 11 × 8 × 2,5 cm, com um peso aproximado de 190 gramas. As cartas incluem desenhos sexualmente explícitos, assumindo de forma directa a componente erótica que percorre toda a série.

A diversidade dos suportes é, aliás, um dos aspectos mais relevantes de AcontorcionistA. Em vez de utilizar diferentes formatos apenas como variação gráfica, o projecto adapta a sua proposta a cada objecto. O manifesto apresenta uma ideia; o calendário integra-a no quotidiano; o postal transforma-a numa forma de comunicação; e o baralho converte-a num jogo.

Neste sentido, será mais correcto falar de AcontorcionistA como uma colecção de objectos gráficos do que simplesmente como uma série de livros. A publicação insere-se numa tradição de edição independente que explora as fronteiras entre banda desenhada, ilustração, arte gráfica e livro de artista, uma abordagem particularmente próxima da produção da MMMNNNRRRG.

A escolha de um colectivo fictício ou deliberadamente enigmático como entidade autoral — o Grupo Empíreo, Sociedade Anónima de Recreio e Prazer — reforça igualmente a dimensão conceptual do projecto. A linguagem institucional utilizada para apresentar uma obra de conteúdo libertino acrescenta uma componente de humor e paródia à proposta.

AcontorcionistA deve, por isso, ser entendida como uma experiência editorial em que o conteúdo e o suporte não podem ser completamente separados. A passagem do livro ao calendário, do calendário ao postal e deste ao jogo constitui uma espécie de percurso através de diferentes formas de publicação e utilização.

Mais do que uma colecção convencional, os quatro volumes formam uma experiência sobre aquilo que pode ser uma publicação gráfica. Manifesto, Calendário, Cartão-Postal e Baralho são simultaneamente peças autónomas e partes de um projecto comum, cuja principal unidade está na linguagem visual e erótica desenvolvida pelo Grupo Empíreo.

A edição limitada dos diferentes volumes contribui ainda para o seu carácter de objecto de colecção. A existência de conjuntos completos da série, preservados pela Chili Com Carne, permite hoje olhar para AcontorcionistA como um exemplo particular da produção editorial independente portuguesa das últimas décadas.

No conjunto, AcontorcionistA ocupa um espaço pouco habitual entre a banda desenhada, o livro de artista, a ilustração erótica e o objecto editorial. Uma “Rapsódia Erótica” que, em quatro movimentos, transforma sucessivamente a publicação em manifesto, calendário, correspondência e jogo. De fora ficou o projecto “Abria-te a cona toda” que acabou por se auto-censurar e causar uma pequena polémica.

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