Mort Cinder, uma obra maior de Oesterheld e Breccia

Criada em 1962 por Héctor Oesterheld e Alberto Breccia, Mort Cinder rapidamente se tornou uma das obras mais importantes da banda desenhada argentina, sendo hoje considerada uma das grandes criações da dupla e uma referência da banda desenhada mundial. A série foi publicada originalmente na revista Misterix, entre 1962 e 1964.

Ezra Winston tem as feições do próprio Alberto Breccia, embora envelhecidas, numa escolha que introduz desde o início uma relação perturbadora entre o desenhador, a personagem e a passagem do tempo. Através de Winston, o leitor vai descobrindo Mort Cinder, um homem que atravessou diferentes períodos da História e que carrega consigo as memórias de inúmeras vidas.

A estrutura da série permite assim que cada aventura conduza Mort Cinder e Ezra Winston a diferentes momentos históricos. O protagonista recorda episódios relacionados com objectos que chegam ao antiquário, levando a narrativa da antiga Babilónia à Primeira Guerra Mundial, passando pelo Egipto, pela época dos navios negreiros e pela Batalha das Termópilas.

Esta dimensão histórica combina-se com elementos de terror, ficção científica, mistério e fantasia, criando uma narrativa em que a imortalidade de Mort Cinder nunca é totalmente explicada. O personagem é apresentado sobretudo através das suas experiências e memórias, transformando a própria passagem do tempo num dos temas centrais da obra.

Héctor Oesterheld: entre a ficção e a resistência

O trabalho de Héctor Oesterheld distingue-se pela construção de personagens humanas, confrontadas com situações de injustiça, violência ou adversidade. O argumentista é justamente considerado um dos nomes fundamentais da banda desenhada argentina e de língua espanhola.

Nascido em 1919, Oesterheld estudou Geologia, mas cedo percebeu que queria escrever. Iniciou a actividade como argumentista de banda desenhada em 1951 e, logo nos primeiros anos, colaborou com Hugo Pratt, com quem assinou séries como Ernie Pike e Sargento Kirk.

Em 1957 fundou a Editorial Frontera, onde publicou alguns dos seus maiores sucessos, entre os quais Sherlock Time, a sua primeira colaboração com Alberto Breccia, e sobretudo El Eternauta, desenhada por Francisco Solano López. A colaboração com Breccia seria retomada alguns anos depois em Mort Cinder.

À medida que avançavam os anos 1960, a obra de Oesterheld foi assumindo posições políticas cada vez mais explícitas. Em 1968 publicou, com Alberto e Enrique Breccia, uma biografia de Che Guevara em banda desenhada, obra que foi proibida e teve os originais apreendidos pelo governo militar argentino.

Depois do início da ditadura militar, Oesterheld juntou-se aos Montoneros, movimento de resistência à ditadura, assumindo funções relacionadas com a sua imprensa. Em Abril de 1977 desapareceu depois de ter sido sequestrado pelas forças armadas. As suas quatro filhas também foram raptadas e assassinadas. As circunstâncias exactas da sua morte permanecem desconhecidas, embora se suponha que tenha ocorrido em 1977 ou 1978.

A sua obra foi marcada por um forte humanismo, apresentando personagens que, apesar das suas fraquezas, procuram enfrentar situações de injustiça e circunstâncias adversas. Em Mort Cinder, essa dimensão humana encontra uma forma particularmente adequada através de uma personagem condenada a atravessar os séculos e a carregar consigo as experiências de diferentes épocas.

Alberto Breccia e a experimentação gráfica

Alberto Breccia, o desenhador, é igualmente uma das figuras maiores da banda desenhada argentina e sul-americana. Nascido no Uruguai em 1919, mudou-se ainda criança para Buenos Aires, onde desenvolveu praticamente toda a sua carreira.

Durante alguns anos trabalhou num matadouro, mas dedicava o tempo livre ao desenho e à procura de oportunidades profissionais. A partir do início da década de 1940 começou a trabalhar regularmente para revistas de banda desenhada, colaborando com diversos argumentistas.

Será, contudo, a partir da colaboração com Oesterheld em Sherlock Time, no final dos anos 1950, que Breccia começa a desenvolver plenamente uma linguagem gráfica própria. A série é considerada uma obra importante na evolução do seu estilo e antecede directamente Mort Cinder.

Em Mort Cinder, Breccia leva ainda mais longe a sua experimentação gráfica. O preto e branco assume um papel fundamental, com grandes massas de sombra, contrastes violentos, texturas e uma utilização expressiva da luz. O resultado contribui decisivamente para a atmosfera inquietante da série.

O estilo de Breccia não funciona apenas como ilustração do argumento. O desenho participa activamente na construção do suspense e da ambiguidade da narrativa, fazendo com que os ambientes e as próprias personagens adquiram uma dimensão ameaçadora. A exploração radical do contraste entre o preto e o branco tornou-se uma das características mais marcantes da obra.

A partir dos anos 1960, Breccia começou também a trabalhar para o mercado europeu. Entre as suas obras mais conhecidas encontram-se Os Mitos de Cthulhu, adaptação dos contos de H. P. Lovecraft, e vários trabalhos realizados com argumentistas como Carlos Trillo. A sua carreira ficou marcada por uma procura constante de novas soluções gráficas, recorrendo a diferentes técnicas e materiais.

Breccia voltou a colaborar com Oesterheld na biografia de Che Guevara e numa nova versão de El Eternauta. Ao longo das décadas seguintes continuou a desenvolver uma linguagem cada vez mais experimental, influenciando várias gerações de autores.

Alberto Breccia morreu em Buenos Aires, em 1993, deixando uma obra que é hoje considerada fundamental para a história da banda desenhada argentina e internacional.

Uma obra fundamental

Mort Cinder resulta da combinação entre a escrita de Oesterheld e a experimentação gráfica de Breccia. A estrutura baseada nas memórias de um homem imortal permite explorar diferentes períodos históricos e géneros narrativos, enquanto o desenho cria uma atmosfera de permanente inquietação.

A série não teve inicialmente o impacto que viria a alcançar posteriormente, mas foi progressivamente redescoberta e tornou-se uma obra de culto. Hoje é frequentemente apontada como uma das melhores bandas desenhadas produzidas na Argentina e como uma das obras fundamentais dos dois autores.

Mort Cinder é, sem dúvida, uma das maiores obras desta dupla fundamental da banda desenhada mundial. Depois de ter sido editado parcialmente pela ASA em 2005, encontra-se disponível em Portugal numa edição integral, integrada na colecção Novela Gráfica.

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