Congo: Uma Viagem ao Coração das Trevas
Em dezembro de 2017, Henrique Gandum publicou em edição de autor Congo: Um Mundo Esquecido, dando início a uma saga de aventura, mistério e criaturas pré-históricas ambientada no Congo de 1880. Publicado inicialmente sem ISBN nem selo editorial, o álbum seria posteriormente reeditado pela Mudnag Edições, chancela criada por Duarte e Henrique Gandum, permitindo que a obra chegasse às livrarias e grandes superfícies.

A série acompanha o major Afonso Ferreira e os seus homens numa expedição pelas vastas florestas do Congo. O que começa como uma missão de exploração de uma das regiões menos conhecidas da África Central transforma-se rapidamente numa luta pela sobrevivência perante uma natureza hostil, criaturas lendárias e os segredos escondidos naquele território.
O primeiro volume teve uma segunda edição em julho de 2018, através da Mudnag Edições, com 96 páginas a cores e os dois autores já creditados. Em novembro de 2019 chegaria Congo: No Caminho das Trevas, segundo volume da série, com prefácio de Bruno Caetano e lançado durante o 30.º Festival Internacional de Banda Desenhada da Amadora. O lançamento foi acompanhado pela estreia da curta-metragem No Caminho das Trevas, adaptação de duas cenas do livro, protagonizada por Pedro Lima.
No segundo volume, a expedição liderada por Afonso Ferreira atinge o seu ponto mais crítico, com desaparecimentos e mortes que acabam por revelar a verdadeira ambição por detrás da viagem.


Em setembro de 2021, a série expandiu-se com Amélia – Uma História do Congo, publicado em parceria com a Ego Editora e lançado na Feira do Livro de Lisboa. O spin-off acompanha Amélia Valim, uma das enfermeiras ao serviço do missionário Rogério Fonseca, e uma das sobreviventes de uma expedição portuguesa dada como desaparecida.
Em março de 2023 foi publicada Congo: Um Mundo Esquecido – Edição Definitiva. O álbum foi completamente refeito, procurando conferir maior consistência à linguagem gráfica da saga, com desenho actualizado, nova legendagem e acontecimentos inéditos. A edição definitiva teve uma segunda edição em abril de 2024.
Da paixão pela aventura aos criptídeos africanos
A origem de Congo está directamente ligada ao gosto dos autores pelas histórias clássicas de aventura com dinossauros. Entre as principais referências encontram-se O Mundo Perdido, de Arthur Conan Doyle, e King Kong, tanto o filme original de Merian C. Cooper como o remake de Peter Jackson.
O Mundo Perdido é apontado pelos autores como a principal inspiração, a que se junta a influência do remake de King Kong, sobretudo na construção de um ecossistema marcado por características de evolução especulativa. O videojogo baseado no filme de Peter Jackson, a adaptação televisiva da BBC de O Mundo Perdido e Parque Jurássico fazem igualmente parte das referências da série.
A presença de criaturas lendárias está também relacionada com o interesse dos autores pela criptozoologia. Mokele Mbembe e Kasai Rex são alguns dos exemplos utilizados na série, baseados em relatos e descrições antigas. Todos os criptidos de Congo têm origem em relatos e descrições feitas há imenso tempo, pelo que nenhum deles é ‘inventado’ pelos autores.
Ao mesmo tempo, os autores procuram estabelecer uma fronteira clara entre a inspiração ficcional e aquilo que é cientificamente demonstrado. O conhecimento actual da paleontologia é utilizado para representar os dinossauros e outros animais de forma tão cientificamente correcta quanto possível. Porque os autores têm plena consciência que extrapolar os factos para promover ideias de que dinossauros não-avianos ou tarântulas com mais de um metro de envergadura existem no Congo é descredibilizar a ciência e é algo que não querem fazer.
O Congo de 1880
A pesquisa histórica constitui uma componente fundamental da série, particularmente na representação dos exploradores, das suas roupas e do desgaste físico provocado pelas condições extremas da exploração no final do século XIX. Sendo necessária uma pesquisa muito extensa de modo a conseguirem “representar fielmente a aparência das personagens, desde as roupas aos seus bigodes por vezes excêntricos.”
A observação de fotografias e desenhos da época permitiu aos autores acompanhar a transformação física dos exploradores ao longo da viagem: personagens progressivamente mais magras, com barbas maiores e roupas cada vez mais envelhecidas.
A investigação não se limita, contudo, à aparência das personagens. A relação entre a presença europeia e o território africano constitui uma questão central na narrativa. Porque os autores não querem “nunca deixar de representar o homem europeu como o maior culpado para toda a morte e destruição da altura”, pois as suas pesquisas levaram-nos a “relatos extremamente sombrios e ao conhecimento de um dos maiores genocídios alguma vez levados a cabo.”
Para os autores, embora a narrativa acompanhe principalmente personagens europeias, são a fauna, a flora e as populações locais que sofrem as consequências da exploração.
Esta preocupação está também presente na Edição Definitiva, onde foi acrescentada uma cena em que habitantes congoleses discutem o impacto da interferência europeia nas suas terras. Os autores reconhecem, contudo, que existe espaço para desenvolver mais esta dimensão. Porque os autores acreditam “que este é um tema que pode merecer mais exploração” mas também sabem que não é o seu lugar “contar esta história através do olhar dos povos congoleses, por mais interessante que essa ideia seja.”


Um trabalho a quatro mãos
O processo criativo de Duarte e Henrique Gandum foi-se modificando ao longo da produção da série. Inicialmente, o desenvolvimento do argumento era menos linear, com ambos a trocar ideias e a construir diferentes partes da história.
Actualmente, o método começa por uma estrutura mais definida, trabalhando imenso o argumento todo antes de existir a chance de desenhar os primeiros esboços.
O argumento continua, naturalmente, sujeito a alterações durante o processo, mas os autores procuram estabelecer primeiro uma estrutura concisa antes de avançarem para o desenho.
Os cenários ganharam igualmente importância. A floresta deixou de ser encarada apenas como o local onde decorre a acção e passou a desempenhar um papel activo na narrativa e os autores querem que, “cada vez mais, que o cenário de floresta acabe por ser tanto uma personagem como os humanos e os dinossauros.”
A colaboração entre os dois autores assenta ainda na disponibilidade para alterar ou abandonar ideias em benefício da história, num processo que descrevem como actualmente totalmente natural.
Mudnag: da autoedição à chancela editorial
A própria história editorial de Congo acompanha a evolução do projecto. O primeiro volume foi publicado em 2017 como edição de autor, numa altura em que os autores ainda não tinham contactos suficientes no sector editorial. A recepção do álbum ultrapassou as expectativas iniciais e contribuiu para a criação da Mudnag Edições.
O nome da chancela resulta do apelido Gandum escrito ao contrário. Antes da Mudnag, os autores utilizavam o nome Gundoom em projectos audiovisuais, mas acabaram por considerá-lo menos adequado para uma editora.
A criação da chancela permitiu-lhes assumir um maior controlo sobre a produção gráfica e editorial dos seus livros, mantendo o carácter independente que esteve na origem da série.
A Edição Definitiva

A versão publicada em 2023 representou uma reformulação profunda do primeiro volume. A intenção inicial passava apenas por actualizar a legendagem, mas o projecto acabou por levar à reconstrução integral do álbum tendo os autores optado por “refazer tudo de raíz, com um desenho atualizado e legendagem mais profissional.”
A evolução gráfica entre os primeiros dois volumes tinha criado uma diferença considerável, levando os autores a aproximar visualmente o primeiro livro da linguagem desenvolvida posteriormente.
A nova versão mantém a história original, mas apresenta uma estrutura de páginas diferente, menos páginas e maior quantidade de conteúdo por página, além de cenas inéditas. Apesar de a obra original ainda poder ser encontrada, “a edição definitiva é a versão que merece ser lida neste momento, como introdução à saga, e é um marco na” linguagem gráfica dos irmão Gandum.
Amélia ganha vida própria

A personagem de Amélia surgiu no segundo volume e rapidamente despertou a curiosidade dos leitores. Num universo narrativo dominado por personagens masculinas, a sua presença foi encarada pelos autores como uma “lufada de ar fresco”.
A reacção do público contribuiu para o desenvolvimento de Amélia – Uma História do Congo, que permitiu aprofundar a personagem e investigar a condição das mulheres e, em particular, das enfermeiras no século XIX. Os autores consideraram que a Amélia “é uma personagem que merece o seu próprio livro e, apesar de não entrar a fundo neste tema do seu passado, existe sempre margem para explicar a sua história em livros futuros da série.”
A personagem recebeu também influência de Agnes, da adaptação cinematográfica de O Mundo Perdido, de 2001. Apesar do protagonismo de Amélia no spin-off, Afonso Ferreira continua a ser a figura central da série principal.
Os autores admitem ainda a possibilidade de ambos os personagens assumirem o protagonismo de futuros volumes, dependendo da evolução da história.
O futuro de Congo

O terceiro volume, Congo: Reino de Sangue, encontra-se em desenvolvimento. Inicialmente pensado como o último capítulo, o projecto foi entretanto alargado para cinco volumes.
A história do terceiro volume implica a existência de um quarto, que já começou a ser desenvolvido, e de um quinto, destinado a concluir definitivamente a história das personagens. Os autores afirmam saber desde a publicação do primeiro volume como pretendem terminar a saga.
O próximo capítulo irá também recuperar personagens introduzidas em Amélia e dar maior destaque às outras nações europeias envolvidas no contexto histórico do Congo, nomeadamente britânicos e belgas.
A série poderá ainda dar origem a novos spin-offs. Aristides, personagem de intenções dúbias que ganhou importância ao longo da história, é um dos candidatos a protagonizar uma prequela sobre as semanas que passou sozinho na selva.
De uma edição de autor publicada em 2017 a um universo composto por uma série principal, um spin-off e diferentes versões do primeiro volume, Congo foi crescendo em dimensão e ambição. A aventura, a criptozoologia e a influência das grandes histórias de exploração continuam no centro da proposta, mas a investigação histórica e a preocupação com as consequências da presença europeia acrescentaram novas camadas ao universo criado por Duarte e Henrique Gandum.