Neste décimo terceiro volume de The Walking Dead, os sobreviventes liderados por Rick Grimes têm pela frente uma tarefa especialmente árdua: reaprender a viver, num simulacro de normalidade. Conseguirão adaptar-se ao desafio da integração numa comunidade que, separada das hordes de zombies por uma muralha de betão, replica um pouco do bucolismo suburbano que o apocalipse extinguiu?
O Lado Bucólico de Walking Dead
A estrutura narrativa da vilória isolada, com os seus habitantes idiossincráticos e bizarrias associada, é uma das mais exploradas nos domínios estéticos da ficção popular. Funciona geralmente em contraste entre personagens que marcam a normalidade e todo um conjunto de estranheza, de pessoas ou situações, que se lhes opõem em conflito. Todo este décimo terceiro volume de Walking Dead leva em frente a interminável série partindo desta estrutura. Opor normalidade a bizarria é algo impossível dentro do mundo ficcional da série, por inerência do tema. O caminho trilhado é o da adaptação do endurecido grupo de sobreviventes face à complacência de uma comunidade isolada, ilha de normalidade sitiada no mundo infestado por zombies, capaz de fechar os olhos a coisas menos boas dos seus elementos como preço a pagar pela sobrevivência.
Para um grupo traumatizado, que passou por muito ao longo da série, este oásis é ao mesmo tempo um alívio e uma angústia. Alívio por sentirem que a interminável luta pela sobrevivência chegou ao fim, e angústia de inquietude provocada por esse alívio. Parte do grupo reage adaptando-se, tornando-se membros activos da nova comunidade, integrando-se com os existentes e passando a fazer parte das equipes de trabalho que mantém a comunidade protegida. Outros, como Michonne, atrevem-se a colocar de lado toda a violência que não hesitaram em exercer e tentar um regresso pálido à normalidade, atrevendo-se até a estabelecer relações amorosas.
Não Há Descanso no Mundo de Walking Dead
Aquele que mais sofrerá neste processo de adaptações será Rick. Tem sido a sua força e capacidades que mantiveram o grupo vivo e coeso ao longo dos longos e sangrentos périplos. A sua sabedoria irá servir bem a comunidade, mas uma certa paranóia, um sentimento que o leva a manter a sua desconfiança elevada, impede-o se se integrar. Paradoxalmente, será o próprio líder da cidade que tudo fará para que Rick assuma uma posição de autoridade que, no limite, poderá desafiar a sua. Ele sabe que a experiência e instintos de sobrevivência do antigo xerife são tão fundamentais para a sobrevivência da sua comunidade como a manutenção dos muros que os protegem das hordas de zombies ou a busca por mantimentos no exterior.
Tensões que colidem quando Rick intervém em defesa de uma mulher violentada pelo marido, cujos comportamentos violentos eram ignorados pela comunidade por este ser o seu médico. Uma situação intolerável para Rick, explosiva para a comunidade, cuja resolução não será fácil e trará mais agruras. Na conclusão deste arco, a incapacidade de Rick assumir compromissos em defesa dos seus princípios, a sua sabedoria adquirida na dura sobrevivência ao Apocalipse zombie, e a coragem para enfrentar as consequências das suas decisões torna-lo-á o elemento que a comunidade necessita para sobreviver. Talvez estas casas isoladas do mundo exterior por um muro de betão sejam o oásis final que dará descanso aos heróis de Walking Dead. Talvez até Rick se deixe apaixonar e recomece a viver uma vida.
Talvez. Estamos no mundo onde quer os mortos-vivos quer os sobreviventes são demasiado perigosos. Relaxar e baixar a guarda é um luxo a que estes personagens não se podem dar.

Open The Walking Dead Volume 13: Longe Demais
Autores: Robert Kirkman, Charlie Adlard e Cliff Rathburn.
Editora: Devir
Páginas: 136, capa mole
PVP: 14,99 €
