Considerando que ainda tenho algum tempo para falar de Beja antes da inauguração do festival, aproveito hoje para regressar ao tema da novela gráfica, que tem sido discutido e aprofundado por ocasião da excelente coleção lançada pela Levoir e pelo jornal Público.
O contributo que hoje proponho trazer a essa discussão liga-se ao facto de, para mim, a diferente graduação que a expressão “novela gráfica” encerra estar mais ligada à ambição narrativa do que à “seriedade” ou “complexidade” da temática.
Um bom exemplo para ilustrar esta ideia é a (igualmente excelente e atual) coleção Graphic MSP, em que autores brasileiros foram convidados a realizar “novelas gráficas” a partir das personagens e universo criativo de Maurício de Sousa.
Magnetar, história do Astronauta realizada por Danilo Beyruth inaugurou a coleção. Vale a pena analisar esse livro para identificar as questões que o identificam como “novela gráfica”.
A primeira questão respeita ao uso dos cartuchos (legendas). Numa história em que há uma única personagem, é um recurso quase obrigatório. No entanto, é um recurso mais difícil do que parece: interfere no ritmo da leitura e na relação texto/imagem, e obriga a que o autor seja, também, escritor. Danilo consegue sair muito bem nesta utilização, encontrando uma voz interior do astronauta que não prejudica a leitura, decompondo visualmente os cartuchos de modo a integrar a imagem, e usando um tom que privilegia a eficácia sobre a exibição da escrita (reforçando a identificação do leitor com o protagonista). E é assim que Danilo consegue ultrapassar também a dificuldade que representa contar uma história (longa) em banda desenhada, com uma única personagem.
Depois, temos o espaço (que neste relato é, sobretudo, o Magnetar). Verdadeiramente é, ao lado do astronauta, a “outra personagem” da história, marcando o vazio (mais do que a nave) e reforçando a solidão. O espaço de Danilo é absolutamente credível porque se identifica com o espaço dos maiores autores de ficção científica: de Jack Kirby (muito presente na página 12) a Mézières, passando por Moebius. Esse é o verdadeiro espaço na BD, e Danilo mostra que conhece bem as suas referências.
A seguir, o astronauta. Nas primeiras páginas, Danilo afasta-se deliberadamente do astronauta redondo de Maurício. O astronauta de Danilo é – nas suas linhas – mais humano, contribuindo para a eficácia da história. Achei muito boa a sequência da escolha dos fatos espaciais, na caraterização psicológica da personagem. Desde 1963 que o Astronauta não está no espaço por castigo, mas por opção (com um preço de solidão e saudade, claro). É bom vê-lo rodeado de gadgets!
É com todos estes recursos que Danilo constrói Magnetar, obedecendo a uma planificação da história muito equilibrada, sem hesitar em recorrer a exercícios formais complexos (com destaque para o “Etc” das páginas 38 a 41), e sem abrandar nos impressionantes virar de página. A forma como utiliza o virar de página é o que mais me impressiona na técnica de Danilo, e é o que, verdadeiramente, faz de Magnetar uma história que dificilmente poderia ser contada, com o mesmo nível de qualidade e eficácia, em qualquer outra forma de linguagem.
Uma palavra para Cris Peter, que tem um trabalho notável que transmite a temperatura adequada, e um tom de modernidade técnica que é absolutamente necessária numa história de ficção científica que é, também, um projeto editorial ousado.
Único ponto menos conseguido: o flashback inicial, que surge tão isolado e descontextualizado, que sabemos que vai ser usado mais adiante, dando alguma previsibilidade a um relato pleno de surpresa. Na minha opinião, bastaria que esse flashback tivesse aparecido acompanhado de outros flashes do passado do astronauta, nomeadamente o passado com Ritinha, até porque a sequência das páginas 54 a 57 não é fácil para novos leitores (só aparecendo contextualizada no texto O Astronauta de Maurício de Sousa).
Tudo somado, é uma belíssima história, muito bem contada, desenhada e colorida, valorizando o património da banda desenhada. Muito bom cartão de visita para a linha Graphic MSP, e para o trabalho de Danilo Beyruth (e Cris Peter).
É inquestionavelmente uma novela gráfica, não tanto pelo que conta, mas sobretudo pela forma como conta.
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